Contos do Zé #22 – O Dia do Juízo Final

A Bigorna 08/10/2020 06:30:00 788 visualizações
# legenda: Contos do Zé

Joelmir estava numa antessala simples, mas muito grande. Ela era toda pintada em tons pastéis e tinha um pé direito de aproximadamente seis metros de altura.

Devia medir uns 100 x 64 metros, o que levou Joelmir a associar o lugar com um campo de futebol oficial.

Mas, o que mais impressionava, era que toda essa estrutura tinha apenas duas portas simples daquelas de 80 centímetros, uma em cada extremo.

O ambiente, apesar disso, não era escuro e abafado, pelo contrário, era claro como a luz do dia e fresco como as manhãs nos campos de trigo do Rio Grande do Sul.

Dentro dessa “sala”, que mais parecia um hangar para aviões de grande porte, só existia uma cadeira de madeira daquelas comuns em barzinhos.

Havia um negro sentado nela, percebeu Joelmir, ainda na outra ponta do ambiente.

Decidiu caminhar até lá para puxar papo e tentar descobrir alguma coisa.

Apesar de ter muitas perguntas em mente e desejar respostas satisfatórias para cada uma delas, caminhou vagarosamente até o homem desconhecido.

Antes mesmo de se aproximar o suficiente para começar uma conversa, ouviu:

 

- Sou Batista. Você não me conhece, mas eu sei exatamente quem você é, Joelmir.

- Como assim?

- Sabendo, ué.

- Como alguém que eu nunca vi na vida pode me conhecer tão bem?

- Você sabe o que te aconteceu?

- Não exatamente, mas tenho uma forte suspeita…

- Dizer isso é muito você, Joelmir! Desembucha, homem! Diz logo que você morreu!

- É, acho que morri.

- Pois eu tenho certeza!

- Quem é você, para saber de tudo e bradar isso aos quatro cantos?

- Seu Anjo da Guarda.

- E o que você fez para conseguir ser meu Anjo da Guarda?

- Fui escolhido pela sua mãe, a Dona Inês, antes mesmo de ela nascer.

- Certo. Me parece razoável diante desse novo acerto das coisas.

- Pare de pensar como um advogado, Joelmir! Você morreu, cara! Aqui as regras são outras! Fique de coração aberto para o novo!

- Certo…

- Sei que você tem algumas perguntas. Pode fazê-las agora.

- Porque estou vestindo essas roupas de hospital?

- Porque foi com elas que você morreu.

- E isso quer dizer que terei que usá-las para sempre?

- Claro que não! Basta querer trocá-la!

- Eu quero! Como faço?

- Imagine uma roupa nova e pronto!

- Vamos ver se consigo…

- Viu só? Fácil!

- Onde estou exatamente? Pergunto porque não imaginava que o Céu fosse exatamente assim…

- Vamos com calma. Primeiro que o Céu não é “exatamente assim”. Segundo que o Céu ou o Inferno serão como você quiser que eles sejam. Terceiro que aqui é a Sala de Espera do Tribunal Celestial.

- Mas você disse que era para eu esquecer que fui advogado, e agora diz que estou num Tribunal!

- Sim. É que advogados não são necessários aqui…

- Como não?

- O Juiz não é injusto, conhece todas as provas do julgamento profundamente e, sobretudo, dá a palavra final para todas as coisas. Sua vontade é sempre respeitada.

- Serei julgado por Deus?

- Se esse é o nome que você dá para Ele, sim.

- E quanto tempo eu terei que esperar pelo julgamento?

- O tempo necessário.

- E como serão as coisas lá dentro?

- Justas.

- Acha que eu vou para o Céu?

- Você acha que merece estar lá?

- Eu quero ir…

- Não perguntei se você quer ir. Querer, todos querem! Perguntei se você acha que merece estar lá!

- Acredito que sim! Fui um bom filho, sempre tratei bem e nunca traí minha esposa, criei meus filhos da melhor maneira que pude e jamais prejudiquei meus clientes, amigos, colegas ou desconhecidos! E fiz com que todos os animais sob minha responsabilidade tivessem uma vida plena...

- Falar “jamais prejudiquei meus clientes, amigos, colegas ou desconhecidos” é tão você! Não era mais fácil dizer “jamais prejudiquei ninguém”?

- É a força do hábito. São muitos anos trabalhando como advogado, e…

- Eu sei, Joelmir. Eu sei…

- Sabe Batista, estamos aqui tem uns 15 minutos, mas já estou começando a me habituar…

- Não estamos aqui só por 15 minutos! Não no tempo da Terra, pelo menos! Estivemos conversando por 73 anos.

- Não pode ser!

- Mas é!

- E quando será meu julgamento?

- Já foi.

- E qual o resultado?

- Qual você acha que foi?

- Eu não sei dizer… parece que eu nasci, cresci, não entendi o que era para fazer, morri e agora estou aqui!

- Tudo o que você fez ou desejou para as outras pessoas, sempre retornou em dobro. Saber disso te assusta ou te conforta?

- Conforta!

- Então você entendeu exatamente o que era para fazer!

- Sério?

- Sério!

- E quando vou saber o resultado do meu julgamento?

- Você já sabe!

- E quando vou para o Céu?

- Já está no Céu.

- Como assim? O Céu é um galpão gigante?

- Mais cedo eu não te disse que o Céu ou o Inferno seria como você desejasse?

- Disse…

- Então.

- Está tudo bem, Batista. É só que eu achei que veria Deus.

- E viu!

- Você é Deus, Batista?

- Todos somos! Está nas Escrituras Sagradas, aliás.

- Sim! Em Salmos 82:6!

 

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