Crônica: Eu vi um menino correndo _ Zé Carlos Santos Peres

A Bigorna 21/11/2019 06:00:00 586 visualizações
# legenda: Crônica

Por José Carlos Santos Peres

Descem a Samuel Wainer numa carreira desenfreada. Desafiam os muitos cães preguiçosos, espalham as matracas das maritacas pelos quintais; quebram a monotonia da tarde na aflição de mãos e olhos para o alto numa algazarra sem fim.

Na indecisão do vento uma pipa desengonçada balança: embica para baixo numa rasante certeira para de repente girar sobre eixo imaginário e tomar de outro rumo. Carrega mãos e olhos da garotada.

Descem a Samuel Wainer. Quatro ou cinco descalços e descamisados. O menor é Menorzinho, à frente da tropa, mas perdendo folego e passadas.

Os meninos se agigantam pelo terreno vazio, mergulham por debaixo de uma cerca de arame farpado, buscam o voo sem norte da águia de papel. Do lado de fora, certo da impossibilidade da disputa, Menorzinho só faz por choramingar que a havia visto “ por primeiro”

Há uma única regra entre eles: leva quem pega. Pipa solta no ar não tem dono; ao antigo proprietário apenas o que lhe restar da linha, e uma tremenda frustração, nem tanto pela perda, mas pela derrota para outro competidor.

A pipa desce lentamente, ao sabor do vento. Os meninos braços ao alto esticando-se para alcança-la. Qual deles?

O Menorzinho distante da disputa... De algum lugar alguém o chama. Mas Menorzinho não ouve; apenas observa o seu objeto de desejo bailando no mais longe.

A pipa volta a subir, ela que, por um momento, estivera ao alcance das mãos dos meninos; caminha mais para o alto e mais para dentro do imenso terreno, onde está localizada a antena retransmissora da Rádio Avaré, levando consigo a disputa daqueles cavalinhos doidos, trombando-se, acotovelando-se.

A voz continua a chamar pelo Menorzinho.

Menorzinho, do alto dos seus 6 ou 7 anos percebe a movimentação do vento, sabe que tudo pode mudar de uma hora para outra, que o vento é senhor do seu destino.

Menorzinho, agora, é expectativa...

A pipa sai da rota pensada pelos meninos e ameaça retornar ao ponto de origem, lá onde o menor de todos restara com o choro entrecortado e o lamento contido: eu a vi primeiro.

No mais distante os demais já não têm pernas, sabem da inutilidade de uma nova disputa com o vento matreiro. Observam, estáticos e frustrados, o último volteio da águia de papel.

Então Menorzinho enxuga os olhos com os bracinhos sujos, e nem precisa dar meia dúzia de passos para recolher pela rabiola uma esfarrapada e desengonçada pipa, vindo de não sei donde, dependurada nas asas de algum anjo.

Menorzinho estica as mãozinhas, abre o maior dos sorrisos e finaliza, em alto e bom som: peguei! Já era!

A noite aproxima-se mais da Samuel Wainer, o vento se espalha mais forte, e agora num rumo definido, carrega todas as nuvens pesadas para os lados da represa. A rua se acomoda com seus cães e maritacas.

Menorzinho caminha ao encontro daquela voz debruçada num portão manco. E mais feliz ainda quando seu pai o acolhe num longo abraço: - “caraca, muleque”.

*José Carlos Santos Peres é escritor

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