GIRASSÓIS

A Bigorna 20/01/2020 08:30:00 555 visualizações
GIRASSÓIS legenda: Artigo Foto Fonte: Jornal A Bigorna

Amar e ser amado são necessidades básicas do Homem, é o combustível oferecido pela natureza para suportarmos as intempéries da existência - o arroz e o feijão da alma. Quem não se alimenta direito vive cansado, doente e sem brilho no olhar. As pessoas que não amam também: os dias são cinzentos, chatos. O pudim de leite condensado perde o sabor, o trabalho fica monótono e não enxergamos graça em filmes de comédia.

Mas afinal de contas, o que é o AMOR? Como uma palavra tão pequena pode construir e destruir ao mesmo tempo? Deprimir e alegrar? Tornar indivíduos violentos ou pacíficos?

E para responder os questionamentos utilizarei a explicação de três grandes professores: Platão (gênio da Grécia antiga, pai da filosofia ocidental), Aristóteles (pensador Ateniense que fundamentou a investigação científica) e os GIRASSÓIS (flores do meu jardim responsáveis por esse texto).

Acredito que a expressão Amor Platônico é uma das definições mais famosas sobre o assunto. Naquela época não existia o português que falamos. A língua grega resumia a “coisa” chamada Amor de Eros - o que posteriormente originou o erotismo, erótico etc.


Me refiro ao termo "coisa" porque não sabemos de fato o que sentimos quando desabrocha. Não é como bater o dedinho do pé na porta, onde você pragueja a geração inteira do marceneiro, da fechadura e da dobradiça:


 – filha de uma #$@&*£:%


Eu conheço bem o sofrimento do azarado, acontece direto comigo. Um evento autoexplicativo, não tem abstrações ou dúvidas, é o que é: o dedo encaixa certinho na quina (justo no inverno) e logo em seguida recebemos o impulso elétrico da dor e a reação de ódio mortal.


Com o amor é diferente - escreveu o grande renascentista de Lisboa, Camões:

"É fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer"

Aliás, a arte em si é uma expressão do amor. O sujeito apaixonado não quer fazer cálculos aritméticos, resolver equações trigonométricas, inventar teorias escabrosas de física quântica ou qualquer atividade de pura racionalização. Queremos fazer poesia, música, pintar telas, dançar e assim por diante.  Os amantes estão envolvidos com o coração e não com a mente doentia.

Platão afirmava que o Amor e o desejo são sinônimos. Amamos aquele ou aquilo que desejamos, na intensidade e enquanto o desejo permanecer. Queremos o que não temos na esperança de sermos felizes e quando temos, já não queremos mais. Só o desejo pelo desejo não daria certo, é preciso um troféu (felicidade) como recompensa e quando surge em nós é devido à falta - motivo pelo qual os relacionamentos tendem ao fracasso - pois projetamos no outro nossas carências, medos e ansiedades. Eros é um conceito romântico   insustentável e impermanente. Não é que seja uma ilusão mentirosa. Enquanto o desejo durar, será verdade.

A falseabilidade que exponho é baseada em dois sentidos: primeiro porque o sujeito que ama sempre depende de algo externo e como tudo na existência é um devir, está em constante mudança, as criaturas e os sentimentos também mudam. Não aceitamos a realidade, então inventamos mecanismos (fracassados) para garantir que o companheiro e os seus sentimentos não alterem, nesse caso, o matrimônio, além de serem bem vistos na sociedade. O trâmite é amparado e registrado pela justiça coincidentemente no mesmo local que documentamos as posses (terrenos, casas, automóveis).

Somos estranhos, porém é compreensível. A vida é insegura e incerta, ninguém pode legitimar que estará vivo quando terminar de ler este texto (mas espero que esteja) e isso é motivo suficiente para acharmos diversos meios de diminuir a probabilidade da insegurança. O que para mim não vale de nada. Qual a diferença entre um juiz que anda cercado com vinte guarda-costas e um detento? No fundo ambos são presos.


A segunda falseabilidade é causa de pessoas continuarem algemadas, embora a razão que as tenha aproximado outrora tenha chegado ao fim, o que faz parte da natureza nas reflexões de Platão. Muitas desculpas seguram os envolvidos e levam o nome de Amor: a história que tiveram juntos, o apego, os filhos, a estabilidade, o sexo, a falta de coragem, o medo do que terceiros acharão...

Para concluir mostrarei um jardineiro explicando ao filho o que dissemos até agora.

 

Pai, por que as coisas morrem?

Ora! Porque nascem.

Mas tudo que nasce, morre?

Você já viu algo que durou para sempre?

– Não.

Pois é. A maior prova de que uma coisa realmente existiu e foi verdadeira é a sua própria morte.

Que triste, lamentou o garoto com os olhos marejados.

Entendendo a dor do filho, o velho respondeu:

Veja, os GIRASSÓIS de plástico podem durar uma eternidade dentro de um vaso lindo e caro. De repente, quem olhe de longe acredite que são reais, contudo, sua beleza é artificial. As flores de verdade são delicadas, enfrentam o frio a chuva e apesar e serem cultivadas carinhosamente, com o tempo murcham. É a natureza de tudo: brotar e depois desparecer. Por isso escolhemos manter os buquês de mentira - não morrem. O problema, é que o conforto de algo falso nos priva de sentir o perfume que só uma flor viva tem. Os GIRASSÓIS morrem para outros germinarem em seu lugar, continuando a vida a cada manhã.

...

O próximo ponto de vista é o de Aristóteles e não me alongarei com devaneios... não sou um grande apreciador cientificista. Em suma, ao contrário de Platão ele afirmava que o Amor não é o desejo pelo que falta e sim a alegria do ter, a felicidade das conquistas realizadas, das amizades conservadas etc. Chamou esse modo de amar de Philia, encontrado no início da palavra em grego, Philosofia. A diferença nítida é que um se baseia na ausência e o outro na presença. Analisando superficialmente a segunda premissa é legal, aceitável, menos vulgar, inclusive os espiritualistas a veneram. Peço um pouquinho de calma, leitor, não tire conclusões apressadas - ainda temos o terceiro professor, lembra?  

Bom, a respeito de Aristóteles e Platão, ambos são condicionados, precisam de um objeto de amor para amar, um alvo de fora.  Amamos alguém ou algo até pisarem em nosso calo, traírem a confiança, quebrarem, deixarem de ser úteis, não fazerem o que gostaríamos que fizessem, não agirem da maneira como achamos certa, não corresponderem às expectativas que criamos. Enfim, por mais sedutor que pareça o argumento dos Aristotélicos, o amor dele precisa de condições  (que no geral é a sociedade, religião, tradição, moral que determinam) para existir.

Faz o seguinte: cansei da ladainha. Jogue o que leu no lixo.


Vamos direto para as flores, o que realmente importa aqui: o simples, o singelo. Você já percebeu que não gostamos da simplicidade. Claro que da boca para fora e nas redes sociais escutamos um monte de hipocrisias - o que é de praxe. Mas no fundo queremos desafios, grandiosidade. Ninguém gosta do comum e quer ser comum. A mente aprecia as dificuldades, os desafios, as metas, os números, as congratulações, os elogios, a racionalidade, a matemática. Perceba no seu cotidiano. De tão simplório que é o simples ninguém dá a mínima atenção, ninguém se importa. Os acadêmicos estufam o peito quando leem Immanuel Kant e os tolos enaltecem o ego ao terminarem o livro Os Miseráveis. 


É impressionante como o conhecimento surge dos lugares menos prováveis. Aprendi muito mais sobre as coisas da vida com as flores do que lendo os clássicos da história do pensamento humano. A definição do termo filosofia é belíssima, significa O AMOR PELA SABEDORIA e em poucas linhas provarei a magnitude do último tipo de amor proposto aqui - o de Cristo....

Os girassóis não exalam amor apenas aos familiares e meia dúzia de chegados, não restringem seu perfume à consanguinidade ou pela afinidade ideológica e de interesses (como é o nosso caso). Qualquer um que passar ao seu lado sentirá seu cheiro doce. Não escolhem cor, credo ou situação econômica para serem amorosos. De tanto que estão preenchidos, acaba não sobrando opção a não ser dividir o que têm.

Em realidade, os Girassóis não precisam de ninguém para demonstrarem gratidão à vida, não amam por carência e nem condicionamentos. É da essência das flores perfumarem (ou se preferir amarem) onde estão. O Cristo histórico foi assim e não duvido que ele distribuía flores simbolizando o que sentia pela humanidade. Um cara foda. Passou nessa terra como passam as flores: amando os ricos, as prostitutas, os pobres, seus inimigos e os lazarentos. Jesus foi um legítimo amante. Mandou toda erudição acerca dos valores (incluindo amar) para a merda sem dizer uma única palavra. Sua vida era um ensinamento explícito. Abriu mão de si para o próximo. Talvez, a figura materna seja a melhor representação das mensagens crísticas. O amor de mãe é incondicional: recua para o filho andar, perde o sono para o rebento dormir, deixa de comer para alimentá-lo e se for necessário abre mão da sua própria vida para deixá-lo viver. 

Que esse texto germine na forma de amor para quem ler, tanto quanto germinou minha inspiração através de um girassol.

 

Por Ismael Tavernaro Filho

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