Contos do Zé #16 - O lado bom das coisas

Zé Renato 28/04/2020 21:50:00 588 visualizações

Luciano morreu jovem. Foi uma daquelas mortes bestas, sabe? Ele tinha 18 anos quando se afogou com um pedaço de carne que tinha sobrado do churrasco do almoço de domingo.

Bem que ele sentia que não era uma boa ideia assaltar a geladeira de madrugada! Mas veja: Se isso fosse errado, a geladeira não viria de fábrica com uma lâmpada dentro, não é mesmo?

No começo foi difícil. Sempre é. Luciano via todas aquelas pessoas, sobretudo seus pais e namorada, chorando por sua perda.

No velório, o que mais diziam era "porque tão jovem?" Ninguém poderia responder aquela questão. Nem mesmo ele! Prometeu questionar tal fato a Deus, se tivesse a oportunidade de estar diante Dele.

Mas o tempo foi passando, a poeira baixou e as pessoas acabaram - de uma maneira ou de outra - seguindo seus caminhos. E com Luciano não foi diferente.

Passados cerca de 15 anos desde o seu trágico fim enquanto ser humano, ele ainda não havia ido para o Céu, o que era estranho. E nem para o Inferno, o que era bom. Tampouco tinha conhecido Deus. Mas todo esse tempo não foi em vão.

Luciano aproveitou sua invisibilidade para entrar nos lugares sem ser notado. Visitar os familiares e amigos foi algo que ele deixou de fazer porque acabava sempre se entristecendo. Às vezes porque percebia que as pessoas ainda sofriam por sua morte, ou porque as pessoas que ele julgava importantes nem sequer se lembravam mais dele.

Cogitou frequentar motéis, cabarés e outros locais similares, mas logo percebeu que fazer isso seria o mesmo que estar em sétimo lugar na linha sucessória da Realeza Britânica: Não adiantava nada.

Foi então que teve a ideia de entrar em eventos esportivos e em shows musicais. Acompanhou todas as etapas da Fórmula 1 de 2005 in loco, sem pagar nada e de quebra ainda assistiu um show do Elton John!

"Nada mal para um moleque de apenas 18 anos e sem um tostão no bolso", pensou.

Não, Luciano não achou legal morrer. Mas sempre procurou ver o lado bom das coisas. Ele só estava fazendo uma limonada com os limões que a morte havia lhe dado…

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