Crônica
A DESGRAÇA DO GRAXA
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José Carlos Santos Peres
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O telefone toca na Oficina São Cristóvão. Do outro lado, Marcinha Da Recepção com seus ais e uis... Queria falar com o mecânico chefe que, platonicamente, nutria por ela uma paixão devastadora.
- Aqui é o ajudante Betão no apareio...O Graxa? Não se encontra no recinto do local. A senhora quer deixar recado? Acho que ele foi dar uma cagadinha. Um tico.
Graxa, emputecido:
- Eu mato esse desgraçado... Onde já se viu falar para a Marcinha que fui dar uma cagadinha. Aliás, que merda é essa de tico? Você pode me explicar, Betão?
- Vem de tico-tico, chefe.
- Mas que tem a ver, meu irmão? Só falta agora ela pensar que estou a cagar passarinhos.
- Quer dizer coisa rasteirinha, de nada... Você já viu um tico-tico, chefe?
- Não acredito, meu... Uma vida nessa de firmar uma imagem perante. Sou um cara romântico do caraio; inda ontem comprei uma caixa de paçoquinha pra ela... Essa coisa escatológica tem de ficar entre quatro paredes, meu... Porra Betão, ela deve estar pensando: o Graxa é um cagão.
- E não é? Hoje mesmo você deve ter ido umas treis veis ao banheiro...
Quatro!
Desce tropeçando degraus. E no que sai o telefone toca, novamente, para desespero do Betão, já sem saber o que dizer:
- Dona Márcia, a senhora não vai acreditar. Mas ele foi... Digamos assim: tirar água do joelho... Ah, a senhora não sabe o que significa? Dona Márcia, em que mundo a senhora véve? Seringa? Não, dona Márcia, é pelo procedimento natural mesmo.
Do meu canto, resolvo colaborar:
- Betão, pega lá com o Flavio da CIPA um comprimido de Imosec que, pelo jeito, essa tortura do Graxa não tem hora para terminar.
Pouco depois o ajudante chega com uma cartela de seis comprimidos. Solícito, vai ao encontro do chefe, antes que ele tome novamente o caminho do banheiro.
- Taí, ô mar agradecido... Toma uns quatro, pra ver se estanca.
Copinho d`água, comprimido suspenso, Graxa tem um estalo:
- Betão, me diga uma coisa: a Marcinha não se mudou se para a mesma sala do Flávio?
- Do ladinho... Inclusive justamente ela me alcançou a cartela.
Graxa perde a cor... Um pulo e um tapa na bancada, derrubando parafusos, chaves, jogos da sena e bielas das parafusetas:
- Putaquepariu, Betão! Cumé que você vai pegar com a minha princesinha um remédio pra diarreia? E ainda me pede seis comprimidos, meirmão? Pedisse unzinho só, desgraçado. Unzinho!
- Preocupa não, chefe. Eu disse que no seu caso seria pra combater uma doença que resseca o peão por dentro, chamada escratológica.
- Fudeu, Betão... Que porra é essa de resseca? É o contrário, idiota.
- Falei assim: dona Márcia, o Graxa é um cara ressecado que dá até dó... Eita cara ressecado esse meu amigo, eu falei.
Ôps! Novamente a coisa aperta e Graxa sai em disparada: - se a princesinha ligar diga que morri - E se afunda de vez no banheiro.
Pois não é que:
- Beto, meu querido. E o homem? Sarou? Preciso passar uma Ordem de Serviço para ele.
- Dona Márcia, é o seguinte: não vou enrolar, que toda vez que falo com a senhora acaba dando cagada. Aliás, bem a propósito essa palavra aí, em se tratando... Hein, dona Márcia?
- Num entendi, Roberto... Em se tratando de quê?
- Dona Márcia, a senhora me descurpa eu, mas já percebi que a senhora é meio lerda pra certas coisas...
- Eu, lerda? Tá bom, meu querido. Mas me diga: e o homem? Quero falar com ele.
- Pois é, dona Márcia. Serei direto como uma flecha: ele disse - se a princesinha ligar diga que morri... Então é isso, dona Márcia, o morfético morreu!
- Engraçadinho... Quer dizer que ele morreu? E o senhor, seu Roberto, que é tão esperto no palavreado, poderia me dizer da causa?
- Sabe de uma coisa, dona Márcia?! Serei direto como uma segunda flecha: o filho da puta morreu foi de caganeira... Pronto! Falei!













