Por Guilherme de Andrades
Apesar da óbvia negação, ainda é comum apontar o historiador, o professor de História sobretudo, como um doutrinador, como se a aula fosse um comício em defesa de certas figuras políticas. O assunto transformou-se numa verdadeira perseguição nos tempos atuais, onde os mais insólitos discursos são considerados verdadeiros.
O que não aponta-se é o advento da Globalização e suas redes, como as digitais, que inserem os alunos em plataformas e sites e comunidades como o Instagram, que “segue-se” pessoas, incluindo as figuras políticas, que vias posts, ou ainda podcasts, lives, canais no Youtube, influenciam o aluno e futuro eleitor, seja por manipulação, fake news ou qualquer outro recurso. Cita-se também os algoritmos, que recomendam via redes, mais visões de mundo diversas em uma tarde do que um professor durante o bimestre. Bem como não é inferida a família, que possui seu viés ideológico, que é imbricado nas relações e pode ser transmitido. Ironicamente, toda a “culpa” é atribuída à escola e em particular, ao docente da disciplina de História.
Ademais, é de comum conhecimento docente a imensidade de conteúdos e a pouca carga horária de aulas de História, não sendo absurdo afirmar que muitas vezes o professor simplesmente não tem tempo de trabalhar temas da República Nova, onde trata-se dos governos mais recentes pós Ditadura Militar, sendo considerado este o último tema concreto a ser ensinado até o fim do ano letivo no Ensino médio, num cenário pautado por vestibulares e decisões importantíssimas para a vida do alunado. O indício de polarização a ser ensinado perpassa a Era Vargas, existindo o regime de 1964 e suas atrocidades a impossibilidade de defesa. Compara-se ao tempo gasto pelos alunos nas redes sociais, em frente a telas e o de aulas de História, que não ultrapassam 2 aulas semanais de 45 a 50 minutos cada.
Deve ser ressaltado o aspecto mais básico: o ensino de História inclui a política como campo, não necessariamente uma adesão partidária, simultaneamente, qualquer ser humano possui suas convicções e estas devem ser amplamente respeitadas. Uma aula sobre Escravidão perpassa a política, assim como crise de 1929 ou golpes ditatoriais. O professor profissional deve mostrar os cenários, ensinar a crítica interpretativa a partir dos historiadores cânones, ampliando repertório para que o aluno possa ler e agir no mundo a partir dos exemplos do passado histórico.
Em síntese, a tese do professor doutrinador não é mais do que uma ignorância política enviesada de sujeitos que não conhecem a realidade escolar cotidiana.
Sobre Guilherme de Andrades:
Professor/Historiador, especialista em História e Geografia do Brasil, bem como em Metodologias do Ensino. Possui certificação USP sobre Geopolítica Contemporânea.













