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“Eu me reconheci negra a partir da toga”

Por Jornal A Bigorna 02/06/2021 19:40:00 8 mins read 933
“Eu me reconheci negra a partir da toga”

Perfil Sociodemográfico dos Magistrados, publicado pelo Conselho Nacional de Justiça em 2018, mostrava que 38% dos juízes brasileiros eram mulheres e 18% eram negros (16,5% se declaravam pardos e só 1,6%, pretos). Eles tinham, em média, 47 anos. Mulher e negra, Bárbara Ferrito, hoje com 37, tornou-se juíza do trabalho aos 31. “Sabe quando você sente que achou o seu lugar?”, resumiu. Mas foi também na magistratura que ela começou a perceber vozes dissonantes dizendo-lhe o contrário. “Você está em outro mundo. Você é a exceção, você causa estranhamento, isso é muito desconfortável, e é um desconforto ao qual eu não estava acostumada. Me reconhecer negra, ver que eu sou vista de maneira diferente, veio com a toga.” No convívio com colegas negros, encontrou acolhimento e passou a entender a si mesma.

ui criada no Méier, passando os fins de semana em Inhaúma, ambos na Zona Norte do Rio. Minha história é bem suburbana. Tenho quatro irmãos: três por parte de pai, que não moravam comigo, mas a gente se dá super bem, e uma irmã que cresceu comigo. É uma família grande. Morávamos eu, minha mãe e minha irmã, pois meu pai faleceu quando eu tinha sete anos. Ele era técnico desenhista, e minha mãe é professora.

Estudei no Colégio Pedro II. No 4º ano, num laboratório de ciências, a professora fez um júri simulado sobre automedicação. Quando a aula terminou, perguntei: “quem é que trabalha com isso?” Ela retrucou: “o que, com medicamento?” Respondi: “não, defendendo pontos de vista, lutando pelos fracos e oprimidos” etc. Ela disse que eram o advogado e o promotor. Decidi ser promotora, isso com oito anos de idade. Nunca mudei de ideia.

Assim que me formei, comecei a estudar para concurso. Fiquei três anos e meio estudando para entrar na Justiça do Trabalho. Fiz mais de dez concursos. Eu ganhava bem mal e usava meu dinheiro todo para pagar cursos e viagens para as provas.

Nunca tinha gostado de Direito do Trabalho, achava bobo. Eu queria penal, para defender os massacrados pelo sistema. Quando comecei a trabalhar com Direito do Trabalho, percebi que os verdadeiros fracos e oprimidos são os trabalhadores, coitados. No meio do caminho, as coisas me levaram para a magistratura. Quando fiz minha primeira audiência de instrução, quase chorei. Sabe quando você sente que encontrou o seu lugar, que é aquilo que você precisa fazer? Liguei pra minha mãe e disse: “mãe, estou no lugar certo, era mesmo para eu ser juíza.” E ela, sem nenhuma surpresa, respondeu: “Bárbara, eu falo isso desde que você tinha nove anos”.

Sou sistematicamente barrada na porta do tribunal. Se mudar a equipe de segurança, eles vão querer que eu mostre carteira, faça um monte de coisa que não é exigida dos meus colegas brancos. Aconteceu duas vezes de eu dar palestra e ser interpelada por estudantes negras jovens da faculdade de direito, e elas me falarem assim: “eu não sabia que a gente podia ser juíza. Eu nunca tinha visto uma juíza negra”. Isso, além de ser muito triste, recoloca a gente naquele lugar de exceção, de exótica, que causa estranhamento. Uma vez uma servidora me disse que eu não tinha cara de juíza. E é interessante porque é um pouco do conjunto, não é só a cor da pele, mas um pouco da postura, do linguajar, sou muito informal, falo gíria. Tento me controlar, mas é um pouco de quem eu sou, então não fico me penalizando. Mas sai um pouco da ideia da liturgia do cargo, do homem branco idoso formal.

Ser juíza pode ser um trabalho bem chato para quem não gosta. Meu grande feito não foi me tornar juíza, mas ser o que eu queria ser. A grande conquista profissional foi não permitir que os estereótipos de gênero e raça limitassem minhas possibilidades. Eu me permiti sonhar mais do que a sociedade sonharia para mim.(DO Estado de SP)

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