Crônica
A URNA DA TURMA NO CORONEL
José Carlos Santos Peres
Quarta seção eleitoral no “Coronel João Cruz”, destinada preferencialmente aos eleitores com a inicial do nome em Jota. Estou nela, desde Prudente de Morais.
Encontramo-nos por lá, os velhos Zés e não sei quantos jotas, de quatro em quatro anos. Não precisamos mais votar. De há muito, diga-se. Mas o patriotismo ainda nos convoca.
Um viva para Eurico Gaspar Dutra, grita um jovem historiador ao passar pela nossa fila, em tom de pilhéria. Respondemos em uníssono: fogo nos comunistas!
O nosso maior problema está na memória que troca nomes e feições; misturamos as estações nas sinapses em ondas curtas, médias, longas e tropicais.
No mais, mão no peito e salve lindo pendão da esperança que a brisa do Brasil beija e balança às margens do Ipiranga nesta data querida.
- Ainda por aqui, seu Zé? Não foste desta para melhor?
- Com a graça de Santo Epifânio... E você, Januário, ainda usa emplasto sabiá?
- Levando na maciota... Soube que o nosso companheiro Joaquim morreu?
- Quem morreu? O nosso center-half lá no cedrinho da Associação?
- A Josefina.
- Mas não me diga... A Zéfa?
- Bundão aquele, hein?!
- Sempre banhada no cashmere bouquet... Morreu de quê?
- Próstata.
- O Joaquim?
- Ela cantava eu vou para Maracangalha eu vou, eu vou de chapéu de palha...
- Quem cantava?
A fila se arrastando pelo corredor; na entrega do título eleitoral à conferência, uma eternidade.
Revira que revira os bolsos, busca na pochete, na aba do boné, na curvatura da coluna vertebral:
- Cáspita! Onde a véia colocou a porra do título?
- Não é esse papelzinho que o senhor me deu, não, seu Januário...
- Não?
- Não! Está escrito aqui, ó: pegar no Armazém do Bituxo uma lata de óleo Maria, dois parmo de fumo Tietê, pinico de cinco litros e dois maços de Macedônia. E passe no Armarinho do Jesus e me traga um zíper para essa sua calça tergal e um carretel de linha corrente na cor preta.
Diante do visor da urna eletrônica outra eternidade. Juvenal bufando, óculos dependurados sobre o nariz aquilino, saco forçando o zíper avariado.
- Queria mandar um abraço para o Vicente Celestino esteja ele onde estiver... Não pode? Mas eu costumava escrever no papel um abraço para o Junqueira do Palestra quando o voto era impresso... Grazie di cuore.
Os Zés e todos os jotas na fila, irritados com a demora: porra, vou acabar mijando no fraldão.
- Onde a tecla para eu chamar os candidatos de viadão todos osceis aí? E a tecla para eu dar um alô para a Jurema esteja ela onde estiver?
Finalmente, na escadaria da Paulo Novaes, esperando por alguém da família:
- Zé, se a gente não se vê mais e você encontrar a Zéfinha, esteja ela onde estiver diga que eu estou rezando pela alma dela aqui na terra.
- E o Joaquim?
- Que que tem o Joaquim?
- Nada não seu João. Até a próxima, com a graça de São Epifânio... Se o senhor estiver vivo até lá, né?













