"Deus não está morto. Está morto o ser humano ao qual Deus se revelava", afirma Byung-Chul Han. O filósofo coreano, que adotou a Alemanha como segunda pátria, não quer provar a existência de Deus ou fazer novos convertidos em seu livro mais recente: "Falando sobre Deus" (Vozes, 2025).
Quando afirma que "o ser humano morreu", Han está se referindo à morte da nossa capacidade de prestar atenção profunda, de contemplar e de ficar em silêncio. Para o autor, a experiência com Deus exige espera e escuta atenta, pois Deus é atenção sem distração.
Han afirma que a tela digital não é um vitral por meio do qual flui a luz divina, mas mero reflexo do humano. Assim, no ambiente virtual, "o ser humano encontra apenas a si mesmo", o que deixa esse espaço totalmente fechado ao mistério e distanciamento que caracterizam a experiência com o sagrado.
A digitalização da vida tornou-se um dos maiores obstáculos estruturais para a percepção do divino no cotidiano, afirma o filósofo. O barulho constante do ambiente digital extingue a atenção focada, o silêncio e a reflexão, que são fundamentais para o cultivo da dimensão espiritual na vida humana.
O livro "Falando sobre Deus" foi elaborado a partir de uma conversa íntima com o pensamento da filósofa Simone Weil (1909-1943). O diálogo gira em torno de sete palavras fundamentais extraídas do pensamento da filósofa: atenção, descriação, vazio, beleza, dor, silêncio e inatividade.
O problema, segundo o autor, é que o estilo de vida contemporâneo, impulsionado pela era digital, destruiu a habilidade humana da contemplação. Vivemos bombardeados por telas, redes sociais, notificações e informações rápidas o tempo todo. Nossa mente se tornou ansiosa, voraz e viciada em estímulos constantes.
Em um mundo ruidoso e hiperativo, a humanidade perdeu a paciência e a habilidade de permanecer em silêncio e atenta às coisas. Assim, Deus não deixou de existir; ao contrário, fomos nós que, soterrados pela distração e pelo barulho da modernidade, nos tornamos insensíveis ao sagrado.
Para Byung-Chul Han, a discussão sobre Deus passa longe da defesa de dogmas de uma instituição religiosa específica ou de uma estrutura de poder eclesiástico. Sua aproximação do sagrado é feita a partir das perspectivas mística, filosófica e contemplativa.
O Deus do filósofo, sob a inspiração de Weil, é encontrado na experiência do silêncio da contemplação estética, da atenção profunda propiciada pela meditação e do amor incondicional ao próximo e ao mundo.
Para vivenciar o sagrado com essa autenticidade, no entanto, é preciso abraçar o que a modernidade mais rejeita: o sofrimento. Han, fiel a Simone Weil, destaca que o infortúnio e a dor extrema "rompem a parede divisória que separa a alma de Deus".
Entretanto, na contramão dessa profundidade, o autor reconhece que tanto as religiões quanto as práticas meditativas foram transformadas em técnicas de auto-otimização, voltadas para o aumento da eficiência, do rendimento e para a redução do estresse. A espiritualidade foi esvaziada e passou a ser apenas ferramenta de autocuidado e autogestão.
Han utiliza a expressão "curral digital" para ilustrar o confinamento dos indivíduos pela tecnologia. Segundo ele, esse aprisionamento é resultado do vício em emoções efêmeras, estimulado pela absorção de "lixo informacional" que é fornecido pelos algoritmos.
Nos primórdios dos buscadores de internet, recordo ter visto um rapaz usando uma camiseta com a frase: "o Google é o meu pastor e nada me faltará". Há três décadas, isso soava apenas como brincadeira bem-humorada com as promessas da tecnologia digital. Hoje, tem o peso de um epitáfio sombrio: aqui jaz a humanidade que trocou o mistério da fé pela sedução da liberdade digital.(da Folha de SP)













