Muitos de nós pensamos em gasolina quando ouvimos falar de uma nova crise no Oriente Médio. No entanto, o impacto do petróleo vai muito além do tanque do seu carro. Ele é um ingrediente oculto em quase tudo que nos cerca: está no plástico da sua escova de dentes, no asfalto sob seus pés, nas roupas que você veste e, de forma decisiva, nos fertilizantes que ajudam a produzir sua comida.
O petróleo é, em essência, uma mistura de hidrocarbonetos que serve como um bloco de construção químico universal. Sua principal vantagem é uma densidade de energia incomparável. Um único litro de gasolina contém uma energia que exigiria baterias dezenas de vezes mais pesadas para ser igualada, tornando-o insubstituível para mover a economia global em navios, aviões e caminhões. O consumo mundial é gigantesco: quase 100 milhões de barris por dia. Se enfileirássemos esses barris, eles dariam a volta na Terra duas vezes e meia, todos os dias.
Para circular pelo planeta, o petróleo depende de um sistema complexo de oleodutos e navios, que funcionam como as veias e artérias da economia. A "artéria" mais crítica de todas é o Estreito de Ormuz, um corredor marítimo com menos de 40 quilômetros de largura entre o Irã e a Península Arábica. Por esse gargalo passa um quinto de todo o petróleo consumido no mundo. Como o Irã controla a margem norte do estreito, qualquer sinal de instabilidade militar na região causa um pânico imediato nos mercados globais. Uma simples ameaça pode fazer os preços dispararem, mesmo que a produção não tenha sido afetada.
Apesar de o Brasil ser um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo, não estamos imunes a esses choques. O motivo é simples: o petróleo é uma commodity global, com seu preço definido em dólar por investidores em bolsas de valores como as de Londres e Nova York. Esses investidores não negociam apenas o petróleo de hoje, mas a expectativa sobre o petróleo de amanhã. O mercado é movido por três forças: oferta, demanda e, principalmente, medo.
Quando o preço do barril sobe lá fora, o efeito cascata é inevitável e rápido. No Brasil, onde quase tudo é transportado por caminhões, o primeiro impacto é o aumento do diesel, que encarece o frete. É por isso que economistas chamam o petróleo de "inflação em estado líquido". O custo extra do transporte é repassado para cada item da cadeia: o tomate na feira, o pão na padaria e o feijão no supermercado.
No fim das contas, uma tensão militar a 10 mil quilômetros de distância define o ritmo da nossa economia, corrói seu poder de compra e pode forçar o Banco Central a manter os juros altos para controlar a inflação. Entender o que acontece no Irã é, portanto, entender por que o seu dinheiro vale um pouco menos a cada ida ao mercado.













