Crônica
PISANDO FOLHAS SOLTAS
José Carlos Santos Peres
Tempo de mangas. Pé alto, sobre muro, pipocado no vermelho. Proibidas são ainda mais gostosas.
A memória busca a infância: quintal se perdendo, goiabas e mangas se misturando no chão, entre galinhas. Nem dava gosto, tanta fartura.
Rua vazia... 5 da tarde, solzinho de preguiça e abandono.
Pensa no portão, do outro lado... O muro não era tão alto assim, apesar dos quarenta pesando no calendário.
O vestido segura os movimentos. Pensa em desistir. Medo do seu Gustavo, homem de semblante azedo, de poucas conversas. Mas nem deu tempo para pensar direito no que fazer: um Chevette estrepitoso aponta na esquina.
As mais bonitas são as mais difíceis.
Galgou os dois primeiros galhos, na solidão do quintal. Sacola de supermercado recolhendo as mais apetitosas.
De repente um farfalhar: busca com os olhos arregalados, cuidando para não se revelar. Por entre as folhas até onde a vista alcança.
Um cão? Um gato?
Gustavão olhando-a, de baixo para cima:
- Vermelha...
- As mangas?
- Também...
Tenta se ajeitar puxando o vestido no possível. Descer o mais rápido, nos mil perdões: achei que podia, iria procurar pelo senhor; faço questão de pagar; nem tem agrotóxico, né? São só umazinhas...
Quero pagar, viu?
O homem pega a sacolinha, depositando-a no chão. Manga Rosa. Doce como mel.
Ela ameaça saltar, segurando o vestido, vexada...
Subir foi tão fácil, diz, tentando intimidade. Ele estica os braços e a recolhe, ainda no alto, com força, mas com delicadeza.
Ela desce como pode, de encontro, o coração em disparada. Sente os braços do homem sobre a costa nua, o decote arfando infinitos e desafios. Calafrios!
A tarde em descompasso e o silêncio sendo interrompido, ao longe, pelo motor do Chevette retornando de alguma outra rua vazia.
Desvencilha-se, aos poucos, sem muito esforço, esquecendo a mão sobre a dele, ao recolher a sacola que ele devolve, olhando-a nos olhos:
- Volte sempre...
Ela ameaça um sorriso. Faz dengo... Puxa o vestido, se equilibra nas sandálias e sai em pisando folhas soltas de uma mangueira.
No portão, antes de girar o trinco, vira-se, sabendo-o no mesmo lugar, rubor tomando as curvas do rosto:
- Prefere vermelha?













