• Dom Paulo Evaristo Arns completa 100 anos pois sobrevive como exemplo dos direitos humanos

    Nacional
    633 Jornal A Bigorna 13/09/2021 13:50:00

    "Dom Paulo vai? Se ele for, eu vou."

    Sempre, nos tempos duros da ditadura, que era convidado para uma manifestação pública, ou reunião sigilosa, perguntava: “Dom Paulo vai?”. Quando a resposta era sim, pronto. Memorizava data e local e estava marcado. Quando era não, às vezes ia, muitas vezes não ia.

    Estar onde Dom Paulo estivesse era garantia de segurança, de que haveria respeito. Mesmo sem crer, dizia a quem quisesse ouvir, sem vergonha alguma, que quando a situação apertava eu corria para baixo da batina do bispo.

    Sim, muitas vezes fui me queixar ao bispo, ao cardeal arcebispo de São Paulo, ao homem que completaria 100 anos nesta terça-feira (14) e que, na verdade, completa, porque de alguma maneira ele sobreviveu com seu exemplo desde que descansou em dezembro de 2016.

    Está aí o padre Júlio Lancellotti para provar.

    Dom Paulo era amigo de minha tia Nadir Kfouri, que ele nomeou como a primeira mulher a assumir a reitoria de uma universidade católica no mundo, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), graças a pedido especial ao então papa Paulo 6º, em 1976.

    Ele se orgulhava disso tanto quanto, brincava, por ter evitado a cassação de São Jorge, ao convencer o papa de que pegaria mal na Inglaterra, que o tem como santo padroeiro. Mas não só.

    Mandou um bilhete ao Santíssimo Padre: “Nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil. Sobretudo ante a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”.

    O papa não se fez de rogado e respondeu: “Para não prejudicar a Inglaterra e nem o Corinthians”, Paulo 6º manteve o santo.

    Dom Paulo chegou a ser capa da revista semanal de futebol Placar, com a bandeira corintiana nas mãos, em 1973, já no 19º ano de jejum de títulos alvinegros. Sua mensagem era singela, a de que “não há derrotas definitivas para o povo”.

    Quatro anos depois, Corinthians campeão, escreveu para a revista a “Pastoral ao Povo Corintiano”:

    “O Corinthians é mesmo o símbolo do povo que não chega lá. Do povo que sofre todas as decepções, desde as mais legítimas, como também as de seus sonhos. Mas é um povo que aguenta. Que é humilde. Povo que se abate, mas que, ao mesmo tempo, sabe que precisa recomeçar. E recomeça mesmo!(…) É isto o espelho do povo? Ou a sua realidade mesma? Ou, ainda, alienação desta realidade, para refugiar-se em alguma coisa que se passa no campo, mas que tem interferências incalculadas? Minha pergunta mais séria é esta: quando é que o Corinthians vai vencer mesmo?”.

    Dom Paulo Evaristo Arns com o escudo do Corinthians, em reprodução de foto da revista Placar de 1973

    Certa vez, em 1975, na Cúria Metropolitana, na paulistana avenida Higienópolis, numa noite e madrugada tensas em que estivemos juntos porque jornalistas do Partido Comunista Brasileiro haviam sido presos e havia a informação de estarem sendo torturados, enquanto aguardávamos o retorno de ligação dele ao comandante do Segundo Exército, já sem ter o que conversar, garrafa térmica de café esgotada, copinhos de plástico Dixie aos montes, arrisquei perguntar: “Dom Paulo, sempre pergunto à tia Nadir e quero saber do senhor se vocês acreditam mesmo em Deus ou se é só um meio para fazer a boa política?”.

    Ele me olhou com olhos meio piedosos, meio surpresos: “Meu filho, você é mesmo impertinente. Você acha que vamos discutir Teologia agora?”. Recolhi-me à minha insignificância e dei-me por satisfeito por não levar um pito ainda maior, como mereci.

    Anos depois, para minha alegria, ele lançou o livro “Corintiano Graças a Deus!” e pediu que fizesse o prefácio.

    Dom Paulo Evaristo Arns é tipo inesquecível. Com sua voz baixa e firme exalava coragem, afeto e paz. Daí ter guerreado como poucos em busca de justiça.

    A madrugada na Cúria culminou, dias depois, com o assassinato de Vladimir Herzog nos porões da polícia política da ditadura.

    Dom Paulo emergiu para o país como gigante dos direitos humanos. Ao lado do rabino Henry Sobel, do reverendo James Wrigth e do presidente do Sindicato dos Jornalistas em São Paulo, Audálio Dantas, ele comandou o Ato Ecumênico na Catedral da Sé.

    Com a cidade sitiada, atiradores de elite nos prédios da praça e nada menos de 8.000 pessoas que venceram as barreiras e manifestaram a indignação represada por anos a fio. Começava ali, dia 31 de outubro de 1975, o fim da ditadura.

    “Não matarás. Quem matar, se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus!”, pregou Dom Paulo no ataque, para, ao encerrar o ato, pedir que todos fossem embora em silêncio, sem dar motivo para que cerca de 500 policiais metralhassem o povo, como se ameaçava.

    Não se ouviu um pio enquanto a massa humana ia embora.

    Dom Paulo tinha o dom, este dom de comandar sem parecer que comanda, sem a vaidade dos comandantes.

    Enfrentava o arbítrio de peito aberto e assim abria também portas de prisões onde havia torturas, ao passar altivo por policiais ou soldados armados, e perplexos, com o tom das ordens que dava: “Vou entrar, sou o arcebispo de São Paulo, abra!”. Abriam e ele entrava.

    Dom Paulo juntava em torno dele o que havia de melhor entre mulheres e homens em São Paulo.

    Para não cometer injustiças, cite-se apenas uma dupla, que representa todos: a ativista pelos Direitos Humanos Margarida Genovois e o advogado José Carlos Dias, braços dele na histórica Comissão de Justiça e Paz, revivida hoje, não por acaso, sob o nome Comissão Arns, porque os tempos sombrios assim o exigem.

    Admirável constatar na constelação de nomes citados que todos, sem exceção, são daqueles que Bertold Brecht classificou como imprescindíveis.

    Pregador sereno da Teologia da Libertação, Dom Paulo viveu como ensinou, capaz de vender o palácio episcopal, onde moravam os bispos, na valorizada região da avenida Paulista, para construir igrejas na periferia de São Paulo.

    A última vez em que estivemos juntos foi na mesa do TUCA, o teatro da PUC, para celebrar seus 95 anos.

    Então, depois de ser homenageado por outro bravo, dom Angélico Sandalo Bernardino, bispo de Blumenau, e companheiro indissociável de vida inteira, recebeu do diabolizado economista João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, um boné do movimento e, para surpresa de ninguém, prontamente o pôs na cabeça.

    “O rosto de dom Paulo é o da periferia de São Paulo. Ele é ecumênico, coração aberto, anunciando a urgência de resistirmos contra toda mentira, contra toda impostura. Naquele tempo, contra a ditadura civil-militar. E essa resistência, a que ele nos convida, é permanente no Brasil atual”, um comovido dom Angélico sentenciou, então.

    Eu vi Pelé recusar três datas para se encontrar com Bill Clinton na Casa Branca, porque, afinal, ele explicou, era o presidente dos Estados Unidos que queria conhecê-lo e ele já havia conhecido uma porção deles.

    Mas um dia, ministro extraordinário de Esportes do Brasil, o Rei do Futebol telefonou e perguntou se eu poderia marcar uma audiência com dom Paulo. Respondi que sim, claro, mas que se ele pedisse à secretaria para marcar, dom Paulo prontamente perguntaria onde, quando, a que horas e iria.

    Ao que o Atleta do Século retrucou: “Não, ele marca onde, quando e a que horas e eu vou”.

    Como este jornalista, Pelé queria estar, embora em situação incomparável, onde dom Paulo estivesse.( Juca Kfouri-Jornalista, colunista da Folha e autor de 'Confesso que Perdi'; é formado em ciências sociais pela USP)

     

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