A verdade é uma patologia verbalmente transmissível

A Bigorna 05/11/2019 11:00:00 360 visualizações
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Certo dia, um amigo visita a casa de Niels Bohr (físico dinamarquês, 1885-1962). Na porta do cientista, uma ferradura pendurada no alto, simbolizando a permanência da sorte:

- Quer dizer que você acredita nessas fantasias? Perguntou o amigo.

Bohr foi uns dos maiores gênios da sua época. Uma mente brilhante e cética. Agora, o que uma ferradura fazia na residência de um sujeito que NÃO era nenhum pouco supersticioso?

Ele olha para o visitante e reponde:

- Não! Não acredito. Mas falaram que apesar disso, a coisa funciona.

Um gigante intelectual, Bohr sabia que há fatos que são indiferentes às nossas crenças ou achismos. Não mudarão em nada! Independentemente do que achamos ou deixamos de achar, eles continuarão sendo.

No ocidente, até o surgimento de Nicolau Copérnico (astrônomo polonês, 1473-1543), juravam de pés juntos que os planetas giravam em torno da Terra. Essa dedução não alterou o evento em si, de maneira alguma. Mesmo que todos do mundo concordassem com o geocentrismo e escrevessem tratados colossais sobre o assunto, a Terra continuaria – tranquila e feliz – rotacionando e transladando na órbita solar. As opiniões não interfeririam na ordem do “produto”. Poderia ser o papa, o imperador, um matemático (e realmente foi), um filósofo ou qualquer outro que tenha dito… A natureza não dá a mínima para o que teorizamos. As coisas são o que são enquanto forem. Por isso as teorias nunca são definitivas e/ou absolutas. São sempre temporárias, passíveis de serem falsas. Se ninguém refutar uma descoberta, provando que está equivocada, permanecerá como “verdade”. Hoje, o Sol é o centro do sistema em que vivemos - é comprovado na medida da nossa capacidade intelectual e dos recursos. Porém, não temos condições de garantir que continuará assim. Vai que um asteroide perdido no espaço entre na Via Láctea e colida com Júpiter, mudando o esquema de disposição dos corpos celestes. Eu sei que é uma suposição maluca - no entanto é admissível, não foge do âmbito de contingência. Quer outro exemplo?

Imagine que um biólogo estude milhares de cisnes, em muitos lugares diferentes e verifique que os cisnes observados são brancos. Isto não lhe permite afirmar que todas as aves dessa espécie são brancas. Independentemente do número de cisnes que o sujeito observe, não poderá assegurar que viu todos do planeta. E se houvesse a chance de registrar cada um deles, quem afirmará que sempre serão da mesma cor? De repente, é gerado um filhote de tonalidade “X” e pronto: a teoria perde a legitimidade. Basta aparecer um único representante diferente para desvalidá-la. Karl Popper (filósofo austro-britânico do século XX) falou exatamente isso: “O conhecimento científico é transitório e só faz jus ao nome, se é falseável.” Assim que se desenrola e se constrói a epistemologia.

Ao contrário do que gritam por aí, eu não vejo antagonismo entre religião e ciência. Na raiz, ambas querem a verdade e cada uma a busca da sua maneira: os sacerdotes do lado de dentro do ser e os PhD´s do lado de fora. A diferença mais relevante, é que a ciência admite – em última análise – que o nosso saber é parcial. Tem coisas que relativamente conhecemos, outras que não dominamos por falta de tecnologia, mas um dia (quem sabe) vamos conhecer e outras ainda, que são incognoscíveis, ou seja, nunca entenderemos. As religiões não podem confessar a sua ignorância diante da Existência, pois são as suas verdades que acorrentam os fiéis. Como poderiam assumir seus medos e incertezas? Que credibilidade teriam em relação aos que procuram ajuda, direção ou acalento? O salário e o poder dos representantes religiosos, infelizmente depende das nossas misérias: angustias, solidão, falta de sentido existencial, medo da morte etc. É claro que eles não têm consciência disso, não escolheram – a princípio – o caminho da fé por dinheiro ou poder. Sentiram-se chamados, tocados, optaram pelo coração como fonte de respostas. Em contrapartida, a ciência escolheu a mente.

Talvez, a própria ideia de verdade eterna seja devido ao seu processo de nascimento constante. Nunca ficamos ausentes de uma verdade. Ela não morre. Porque vive brotando na cabeça de alguém, em algum lugar. Inclusive na preposição de que não existe a verdade, você a encontrará implícita. Ao citar Popper, disse que a Verdade (no sentido de conhecimento) é provisória, passageira e instável. Contudo, pelo mesmo motivo é também perpétua. Sua natureza transitória a faz eterna. Uma permanência oriunda da impermanência. Veja! Para tentar defini-la, fazemos o uso das palavras, conceitos, sistemas de símbolos, da lógica etc. Tudo está guardado no HD do nosso cérebro, correto? Pois bem. A memória é o pretérito literal, um cadáver, experiências que passaram e jogamos em algum canto da psiquê. Lembranças que mantemos “pseudovivas”. Não são reais. Estão mortas. Expressar verbalmente a verdade é uma transmissão de patologia explícita. É o mesmo que tirar sua foto e dizer que aquela pessoa no retrato é você. Loucura!  A imagem permanecerá fixa, estática, enquanto seus cabelos ficam brancos e sua pele flácida.

A verdade conceitual não é verdadeira. É um patrimônio humano, acadêmico. Ela renasce em cada momento dialético – tese, antítese e síntese – de tempos em tempos. Um resultado das nossas convenções perante os termos. E a linguagem não é fiel – nem de longe – o real que propõe expor. Sua objetividade só é válida nas especulações “a posteriori”. Do contrário, é subjetiva quando conveniente e essencialmente paradoxal. Uma emboscada semântica. Um divertimento para a filosofia analítica. Se não houvesse mais homo sapiens, ainda assim haveria a verdade manifestada nos fatos da natureza. Antes de abrir os olhos para esse mundo, você era um potencial de VIR A SER, de existir, igual à verdade.

Todos buscam através do conhecimento o conforto. Nos sentimos como um barco à deriva, perdidos no oceano caótico dos sucessivos eventos - razão pela qual inventamos as diversas “logias”. Criamos as verdades que, inconscientemente, foram o modo encontrado para nos livrar da única certeza da vida: a morte. A verdade deriva do termo “verus”, que em latim significa: aquilo que é. E o que é, é. Não tem interpretações. Ao interpretarmos, ela se torna uma realidade em que, por sua vez, existem muitas. Tanto quanto o número de mentes perambulando na litosfera.

Sabe o que é mais engraçado nessa história? É que as pessoas que realmente conheceram a verdade, não falaram sobre ela. Sabiam que qualquer coisa que dissessem seria mentira. Repare, mente e mentira têm o mesmo radial. Tudo que é proveniente da razão não tem razão nenhuma, é falso. A mente é mentirosa. Quando Pôncio Pilatos indagou a Jesus Cristo o que é a verdade, sua resposta foi o silêncio. Buda tinha onze perguntas que jamais respondia e uma delas era o que é a verdade. Lao Tsé virava as costas e saia andando com seu búfalo, quando o questionavam sobre tal bobagem. Ela não pode ser dita, apenas experienciada. Mas até conhecermos verdadeiramente a verdade, criaremos textos iguais a esse… mentirosos.

 

*Ismael Tavernaro Filho é colunista do Jornal A Bigorna

 

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