Espiritualidade é produto de mercado para consumidores entediados

A Bigorna 28/09/2020 08:20:00 472 visualizações
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Um dos mercados mais intensos em termos de “lifestyle” é o de espiritualidade. E um dos mais picaretas. Terra de ninguém em que está tudo valendo: um pouco de Buda, um pouco de energia, um pouco de ioga, um pouco de terapias alternativas e um pouco de comida orgânica cara. Com as redes sociais, a inconsistência das propostas espirituais piorou ainda mais.

A palavra espiritualidade ganhou espaço na literatura teológica na França, no século 17, e sempre era associada à expressão “ciência dos santos”, que significava, basicamente, a vida prática de quem tem intimidade com Deus. Nasceu no universo mais restrito da Igreja Católica.

A ideia estava associada às transformações que uma pessoa passa ao longo dos anos, tomados por comportamentos, regras e ambientes contidos dentro das práticas cotidianas de cunho religioso institucional, saturadas de rituais litúrgicos.

Com os anos, o componente institucional perdeu força, levando a palavra espiritualidade a quase representar uma vida sem associação com cânones teológicos tradicionais. Dito de forma simples: posso ter uma vida espiritual sem nenhuma prática religiosa institucional, “curtindo cursos sobre espiritualidade”. Ela passou a ser uma versão light da vida religiosa. Mais ágil, leve, e sem cobranças. A espiritualidade de marca contemporânea é mera moda de ocasião.

Com o crescimento do mercado religioso e a segmentação dos produtos religiosos, principalmente para egressos de religiões tradicionais com alto poder aquisitivo, espiritualidade quase se transformou num “lifestyle”. Locais tradicionalmente ligados a tradições religiosas passaram a oferecer spas espirituais, onde os consumidores brincam de vida espiritual em momentos sabáticos. Regados a vinhos ou a alimentação vegana de última geração.

Evolução espiritual seria a transformação pela qual a vida interior e exterior de uma pessoa passa, ao longo de muitos anos de exposição às demandas prescritas pelo cânone específico de uma religião.

Essa transformação a deixaria, supostamente, mais desapegada, mais sábia, menos raivosa, devido ao aprofundamento deste mesmo cânone religioso que prega tal transformação e ao enfrentamento dos nossos demônios.

A chamada “noite escura da alma”, narrada pelo místico espanhol João da Cruz no século 16, é um exemplo clássico do enfrentamento desses demônios, assim como da solidão do deserto, do medo do abandono e da tristeza.

A espiritualidade contemporânea é um produto de mercado para consumidores entediados. Durante a pandemia, desesperados e solitários buscam qualquer forma de espiritualidade que caiba no Zoom.

Religiões como budismo e hinduísmo, originárias de destinos turísticos distantes e caros, com aquela cara de exotismo que os europeus entediados já buscavam no século 19, são as principais candidatas a alimentar essa forma de espiritualidade de consumo.

Justamente por sermos ignorantes de suas idiossincrasias e de suas misérias sociais, essas formas de religiões são facilmente adaptadas aos bairros da elite paulistana. E combinam com gurus bem-falantes.

Sempre me pergunto como alguém pode assumir que, por exemplo, a Índia pode ser um país espiritualizado quando as condições objetivas de vida por lá são tão difíceis. Com isso não quero dizer que o país em si seja pior do que outros centros de difusão de espiritualidades, mas sim pôr em cheque aqueles que assumem que haja algo de evoluído na espiritualidade do caminho do Dharma (vulgarmente conhecido como hinduísmo).

Não existe mais evolução espiritual. Pelo menos não aquela associada às modas de consumo. Evolução espiritual, historicamente, implica muito sofrimento (a tal noite escura da alma), muita dor e muito atravessamento do que justamente não queremos ver. Sem nenhuma promessa de prosperidade.

O filósofo Soren Kierkegaard dizia, no século 19, que toda forma verdadeira de conhecimento começa com um entristecimento consigo mesmo. Nada a ver com “lifestyle”. A espiritualidade passa por um doloroso autoconhecimento e não por um workshop de fim de semana.

 

Por Luiz Felipe Pondé

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