*Por Marcela Fernanda de Andrade
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanha a pessoa ao longo de toda a vida, mas nem sempre é percebido da mesma forma em cada etapa. Para muitas famílias, compreender essa mudança de expressões ao longo do tempo é o que permite construir um olhar mais humano e menos baseado em expectativas que nem sempre correspondem à realidade.
Na infância, o TEA pode aparecer de maneira sutil ou evidente. Alguns pais observam menor busca por interação, maior apego a rotinas rígidas, reações intensas a estímulos sensoriais ou dificuldade de expressar necessidades. Em muitos casos, é um período marcado por perguntas e pela tentativa de entender o que é diferente, mas ainda sem respostas prontas.
À medida que a criança cresce, a convivência escolar traz novos desafios. As regras sociais ficam mais complexas, as exigências de comunicação aumentam e a flexibilidade passa a ser mais cobrada. É nessa fase que algumas características ficam mais visíveis, enquanto outras permanecem discretas, confundindo professores e até familiares. Cada avanço, cada adaptação e cada dificuldade revelam que não existe uma linha fixa de desenvolvimento.
Na adolescência, o mundo se torna mais social e, por isso, é comum que diferenças antes pouco percebidas ganhem destaque. Muitos jovens tentam se adequar para serem aceitos, mesmo que isso custe energia emocional. Outros se isolam para evitar situações confusas ou cansativas. Essa fase pode ser marcada por conflitos internos, busca por identidade e tentativas de entender o próprio modo de sentir e interpretar o mundo.
Na vida adulta, o TEA pode se expressar na forma de dificuldades de organização, sensibilidade sensorial, preferência por rotinas ou desafios nas relações sociais e de trabalho. Há adultos que só nessa fase encontram explicações para sentimentos que carregaram por anos: a sensação de não se encaixar, de funcionar por outra lógica ou de ter que “interpretar” situações cotidianas que para outros parecem simples. A descoberta tardia, para muitos, é um alívio — não porque muda quem são, mas porque finalmente dá sentido ao caminho percorrido.
Em todas as fases, existe algo que não muda: a singularidade de cada pessoa autista. Não há um modelo único de comportamento, nem uma lista fechada de características. O que existe são indivíduos, cada um com seu modo de comunicar, sentir, reagir, se relacionar e existir no mundo.
Entender essa diversidade é essencial para que a sociedade avance. Falar sobre o TEA ao longo da vida não diagnostica, não rotula e não substitui profissionais. Mas acolhe. E acolher é, muitas vezes, o primeiro passo para transformar realidades.
Sobre a colunista
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard. Mãe atípica, é estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa, baseada em observações gerais e conhecimento público. Em caso de dúvidas ou necessidades específicas, procure sempre um profissional qualificado.













