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Era noite de Natal

Por Jornal A Bigorna 24/12/2021 22:20:00 2661
Era noite de Natal

As noites nunca são as mesmas como as noites de Natal, minha mãe sempre me dizia. Abraçava-me e juntos comíamos um panetone e uma carne que nem sempre tínhamos à mesa, pois ganhávamos de sua patroa sempre nas vésperas de Natal.

Minha mãe foi empregada doméstica a vida toda. Meu pai era um forte, embora fosse uma pessoa invisível na sociedade por ser catador de reciclagem, acabou morrendo de pneumonia depois de tanto sofrimento.

A vida nunca nos entrega o que é prometido.

Assim, ficamos eu e minha mãe por muitos anos. Ela trabalhou por mais de 45 anos na mesma família, e com a idade, teve de deixar o trabalho e se aposentou com um salário-mínimo – o destino dos milhões de trabalhadores.

Foi uma época conturbada, até eu conseguir um emprego como jovem-aprendiz, e começar a frequentar a escola nos períodos noturnos.  Através do que recebia conseguia ajudar em casa e ainda comprar ou poder ir adiante com materiais para estudo.

A sociedade é egoísta, e acredito que mesmo sendo ‘invisíveis’ temos o direito de perseguir nossos sonhos para, só, assim, avançarmos com toda nossa capacidade, a qual requer muita dedicação, mesmo sem meios econômicos lutamos por um lugar ao sol. Nossa existência é breve, um tilintar de átomos que se movem e nos dão vida.

A verdade que só consegui estudar para valer com ajuda de minha mãe, já que meu pai não deixara aposentadoria. Foram dias e meses afinco dedicados aos estudos. Alguns professores me ajudaram, por fora, sempre corrigindo meus estudos e me direcionando, quando por fim, fiz o Enem e para  alegria de minha mãe consegui o tão sonhado ingresso numa faculdade de Medicina.

O começo duro marcava-me, mas o sonho era maior. Morava num alojamento e não tinha dinheiro para sair comer o suficiente, muito menos livros e materiais para estudos. Mas isso que não me deixava acreditar que acabaria com meu sonho.

Foi quando conheci Eduarda. Uma jovem descolada e de família muito rica que estava cursando o mesmo termo em que eu estava. Pouco a pouco nos tornamos amigos mais que confidentes. Apesar do abismo social de nossas infâncias, estávamos os dois lá, lado-a-lado.

Com a amizade ela um dia, abruptamente me pegou pela mão e disse que me levaria na casa de seus pais num final de semana. Relutei, mas acabei aceitando. Ela me apresentou aos seus pais, toda uma família de médicos. Confesso que estava constrangido, num almoço familiar tão cheio de pessoas. Eles conversaram muito comigo e Eduarda, mesmo eu pedindo para não falar de minha vida contou aos pais minhas origens, e uma luz inigualável se acendeu ao meu lado.

Com a família de Eduarda sabendo de minha condição, eles me ajudavam nos gastos com alimentação e todo o material de estudo, e, por fim, aos 28 anos me formei médico.

Terminamos juntos a faculdade. Ela foi embora para os Estados Unidos fazer um aperfeiçoamento e nunca mais nos vimos; confesso que sinto a falta de seu sorriso cativante.

A roda da vida gira, e o fim de uma faculdade é o recomeço de outra fase.  Assim, eu comecei a trabalhar numa Unidade de Saúde do povo que não tinha médicos há mais de dois anos para atender a população.

Quando completei um ano de formado consegui financiar uma casa e junto com minha mãe já velhinha, nos mudamos para uma casa modesta.

Em sua última noite de Natal, minha mãe me abraçou e chorou, coisa que nunca fizera em sua vida. “Você conseguiu filho”. Eu lhe respondi que “não, nós dois conseguimos mamãe”.

Na mesma noite em que comemoramos e choramos juntos, minha mãe se foi deixando no meio de um sono de paz na noite bela – numa despedida calma de uma pessoa que lutara a vida toda, e como um ser humano, que sempre se levantara com os ‘joelhos machucados quando caía nas agruras da vida’  - havia cumprido sua missão.

Dei um beijo em seu rosto já corrugado pela vida e agradeci a tudo que ela e meu pai conseguiram fazer de mim e por mim. Jamais seria algo sem ajuda deles, além de meus amigos solidários que me ajudaram a construir um sonho. Minhas aspirações não pararam depois da formatura. Conseguimos montar muitas organizações e, deste modo, ajudar muitas pessoas e famílias, as quais precisavam de ‘mãos amigas’ para sobreviverem a ‘selva de pedra’ e meu primeiro emprego no posto do povo sempre foi mantido, mesmo depois que já tinha meu consultório montado.

Assim é a vida.

Dos abismos construímos pontes para assim vivermos num milionésimo de segundo, uma vida toda que resplandece e ecoa no universo.

Enfim, hoje após 50 anos como médico estou sentado numa cadeira tomando um pouco de vinho e vendo meus netos correrem, minhas duas filhas sorrirem com sua mãe se divertindo. Naquele exato momento, senti um aroma de rosas e a presença de minha mãe ali.

Pouco tempo depois, senti uma lágrima escorrendo; estava pensando também em papai, figura humilde e lutadora de uma sociedade tão dessemelhante, que ainda perdura. Nossa esperança e sorte é que sempre podemos nos amparar nas pessoas boas, essas que fazem a diferença e são imprescindíveis.

Sorri para mim mesmo na esperança de que outras crianças que ainda não tiveram sua vida transformada, que possam um dia através de suas virtudes e esforços, acolá de muita solidariedade terem a esperança de realizar seu sonho maior, a mesma que tive e consegui realizar. Não existem pessoas melhores que as outras, somos todos semelhantes. O que nos diferencia como semelhantes está no fato de tratarmo-nos sempre como iguais.

Naquele momento de união, os velhos sorriam, os jovens dançavam, as crianças corriam....

Era noite de Natal!

 

*Por André Guazzelli

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