Por José Carlos Santos Peres - Vivemos na ilusão de entender Avaré como cidade média. Nosso olhar a vê assim, independente dos números oficiais.
Quando nos perguntam da cidade que nos serve a colocamos como “média”, nunca como cidadezinha de interior. Falseamos a verdade, não por mania de grandeza, mas pelo traço de carinho ao berço que nos embala.
Essa nossa dimensão de olhar – que engorda boi no pasto - não serve como dito oficial: é da competência do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nos dizer quantos somos.
No último levantamento, publicado no início deste mês, o Instituto projetou para Avaré, lá com a respeitável metodologia dele, 89.479 habitantes respirando um mesmo ar.
Houve, portanto, um crescimento, em relação à pesquisa de 2010, de 6.545 habitantes. Como faltam ainda três anos para completar o decênio, poderemos – pelo berreiro na maternidade da Santa Casa e, talvez, processo migratório que nos favoreça - ultrapassar os 91 mil no recenseamento de 2020.
Há controvérsias entre os estudiosos nessa questão de uma cidade ser pequena ou média. Para o IBGE – é o que vale - uma cidade será considerada média se a população ficar entre 100 e 500 mil habitantes.
Não basta, porém, atingir o número mágico de 100 mil se não houver um contexto urbano que qualifique a dimensão demográfica. Tamanho, no caso, não é documento, embora seja de boa valia.
Essa qualificação passa pela estruturação urbana capaz de dar sentido ao que os urbanistas definem como sendo o de conciliar “produção, circulação e consumo”. Sem a soma desses fatores, e daí a movimentação de toda a engrenagem urbana, o conceito “cidade média” fica vazio.
Cidade média não significa necessariamente cidade de Porte Médio, embora possuir uma boa dimensão territorial conta muito. Avaré, aliás, tem uma boa dimensão territorial. Muito boa! Somos o vigésimo no Estado, com 1.200 km2. Não é pouco terra, não!
Capão Bonito, só para dar exemplo, é cidade de Porte Médio, com seus 1.640 km2. Estamos falando do quinto município paulista em dimensão, e sua população está em torno de 43 mil. Não é “cidade média”, com certeza. Tem tamanho, não tem gente.
Bauru, por outro lado, não é cidade de Porte Médio – em considerando dimensão territorial - com seus minguados (?) 673 km2, sendo apenas 69 km2 como perímetro urbano.
Mas é cidade média, com sua população na casa dos 380 mil habitantes, e toda sua estrutura urbana funcional e conexões pelo Estado, além de referência regional. Pequena no tamanho, grande no desenvolvimento. Sem limites, Bauru.
Itapetininga, num centro mais deslocado em relação ao nosso, é outro protótipo (acabado, perfeito) de cidade média, não só porque ultrapassou a barreira dos 100 mil habitantes. Mas porque apresenta diferenciais em relação a outros centros, como produção agrícola invejável.
E Itapetininga caminha para o processo acentuado de industrialização, além de manter, estimular e turbinar conexão com grandes centros (Sorocaba/ São Paulo) fazendo aquele conceito (produzir, circular, consumir) funcionar com eficácia.
Para ser entendida como cidade média, portanto, não basta ter terra... O contexto urbano deve equacionar seu crescimento; trabalhar o adensamento territorial evitando pontos isolados (bairros distantes sem serviços estruturais adequados); contemplar todos os aspectos de infraestrutura: saúde, saneamento, educação, segurança, transporte. E por aí vai.
Cabe então a pergunta: que cidade estamos construindo? Com certeza, não uma para ser chamada de “média”, se nem questões estruturais comezinhas conseguimos resolver.
Uma cidade que pode perder a condição de Estância Turística, o que seria de uma irresponsabilidade sem tamanho; que em pleno feriado de sete de setembro, com tantos moradores de outras cidades circulando pela principal praça (Largo São João) não cuidou de limpar um dos seus cartões postais: a fonte luminosa apagada mantinha uma água fétida em seu fundo; que abdicou da possibilidade de revitalizar seu centro nobre com dinheiro do Estado, que não consegue colocar para funcionar um aparelho de raios-x...
Há um dado relevante que pode servir de desafio aos nossos gestores para pensarem a cidade do amanhã: Avaré possui mais de 59 mil veículos.
E como a cidade trabalha para absorver e resolver tal situação, em se sabendo que a cada dia que passa a população motorizada aumenta?
O centro urbano não tem espaço para crescer, as artérias já estão saturadas... Não considerar essa arrumação de maneira urgente chega a ser irresponsabilidade administrativa.
Pensar Avaré hoje, nesse seu aniversário, na perspectiva do amanhã é condição natural que se impõe. A atual gestão possui competência técnica para alargar esse olhar? Nossos últimos administradores tiveram visão de desenvolvimento?
Não basta, portanto, torcer por uma cidade de mais de 100 mil habitantes se os procedimentos administrativos continuarem os mesmos...
Essa obra de duplicação da SP em faixa urbana é bom exemplo do pensar o amanhã. Melhor se a duplicação se fizer por toda a rodovia. Melhor ainda se vier acompanhada do “produzir” e “consumir”, considerando o pontapé inicial para o “circular”.
Trabalhamos com a hipótese de chegarmos aos cem mil (o número mágico) habitantes no censo de 2030... Se faltar a gente arredonda, sem medo de ser feliz... Não! Não estaremos todos mortos, como diria aquele economista.
A pergunta que fica, somando-se aquela do questionamento da visão administrativa de nossos gestores e até em consequência dela, é se seremos, nesse futuro não tão distante, uma cidade média com 100 mil habitantes ou uma cidade pequena com 100 mil habitantes. Essa resposta está sendo construída agora. Por enquanto, estamos tomando goleada da perspectiva.













