Por André Luis - Existia em uma cidade um jornalista que era o alvo de todas as atenções. Tinha amigos, mas não tinha amizades. Tinha fama, mas não tinha adeptos. Vivia como se nunca fosse morrer. Nunca pensara em ter uma família sólida e forte. Era um homem só. Ele se bastava. Sua vida era do jornal para sua casa, onde se trancafiava, ou às vezes bebia até não aguentar mais. Sua vida era uma fantasia, que só ele não sabia.
Um belo dia, o jornalista acordou com dores terríveis no abdômen. Procurou um médico, e foi diagnosticado com no câncer de fígado.
O câncer era avassalador. Como não tinha família, passou mais de 45 dias só. Sem uma visita.
Aos poucos e com muito sofrimento, ele começou a se dar conta de que, também não tinha amigos. Tudo em sua vida era vexante, momentâneo, passageiro, e que seus supostos amigos estavam mesmo, era interessado no que o jornalista podia fazer por eles, do que pôr uma amizade verdadeira.
Os dias, as semanas, os meses, pareciam anos. A dor começava a se tornar intolerável. A morfina, já quase não fazia efeito, e a tristeza tomava conta de sua vida. Àqueles que o bajulavam, sequer apareciam para visitá-lo. Eram dias de agonia, sem fim.
Horas que não passavam. Seus companheiros, agora, eram os colegas de quimioterapia. Sentia, aos poucos, que seu fim estava chegando.
Numa certa manhã, quando acordou sem dor, o que era raro, notou que subitamente uma menina com um buquê de rosas estava ao lado de sua cama. Eles se entreolharam, por algum tempo. Por fim, ela esticou os braços e lhe entregou algumas flores.
Com muito custo ele conseguiu pegá-las. Agradeceu e recebeu um beijo na testa.
A menina, que mais tinha uma voz límpida e de paz disse-lhe: “Querido seu dia está chegando. Não tema. Você errou, mas Deus não olha para trás. Ele olha sempre para frente. Você viveu uma vida só com malvados, festeiros, companheiros de farra; ambiciosos. Mas isso não importa”.
Depois, virou e disse:
-O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. Perdoe a todos que lhes foram indiferentes e terás uma partida menos dolorosa.
O jornalista notou que menina portava uma pequena pasta, e questionou:
-O que é isso?
- Sua vida.
- Minha vida, meus pertences, dinheiro, minha fama e matérias?
Como a menina não respondeu, ele tomou a mala da menina, e abriu-a.
Não havia nada.
- O que é isso, menina?
- É assim que cada um vivemos. A vida é só um momento. Nada lhe pertence. Entretanto, muitas outras vidas virão, e você terá tempo para redimir-se. E lembre-se, os maiores êxitos não são os que fazem mais ruídos, e, sim, nossas horas mais silenciosas.
Terminando as palavras a menina saiu lentamente pelo quarto. O jornalista, que apenas ouvira algo pela primeira vez em sua vida, encostou as rosas rente a si e chorou.













