Por André Guazzelli- Era uma bela manhã de inverno, quando Lucas decidiu fechar o livro que estava lendo e dar uma volta pelo Horto Florestal, que ficava a poucos quilômetros de sua casa.
Sua mãe estava trabalhando e ele era órfão de pai. Fechou a casa e, em pouco menos de 15 minutos estava adentrando ao Horto. Um vento emanava do sul. Fechou a jaqueta e começou a percorrer a enorme trilha interna que possuía o local.
Enquanto caminhava rememorou as velhas lembranças de seu pai. O abraço forte e amigo, as palavras de conforto, enfim, doze anos de convivência que lhe deram muita alegria. Algumas lágrimas escorreram pelo rosto. A saudade dói.
Estava na metade do caminho quando avistou à frente, um homem agachado que escrevia na terra com um pedaço de pau. Acelerou o passo e, de início notou sua barba por fazer, olhos escuros, e cabelo longo e desgrenhado. Parou ao lado do homem. Incrivelmente, àquele homem parecia um pedinte, mas ele sentiu uma certa atração pelo homem, que teimava em não olhar para ele.
Irritado, mexeu com os pés e fez barulho. Só então notou que era um homem bem mais velho.
O velho fitou-lhe por um estante e sorriu, dizendo: “A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande. A saudade mostra que teu pai está te olhando de onde estiver. Agora tome, pegue este botão de rosas pra você. Ele pertence agora a você. Cuide dele e cuide de muitos que irão aparecer em sua vida. Cada vida é um botão de rosa.”
Dizendo isto, o homem se levantou, e, de repente, começou a caminhar rapidamente.
Lucas seguindo-o questionou: “Onde está Deus? ”
O velho sem se virar e andando, disse-lhe: “Deus está onde deixam Ele entrar”.
Quando Lucas tentou alcançá-lo, o velho, simplesmente, havia sumido.
***
Sessenta anos depois, e com oitenta anos vividos, Lucas já não andava mais. Estava confinado numa cadeira de rodas, e havia fundado um lar para idosos. Ele se empenhou logo depois que começou a receber pedidos de pessoas idosas e doentes para ajudá-los. Como seu salário não dava para muita coisa, resolveu alugar, por conta própria, uma casa, e lá começou a abrigar idosos carentes. Lembrando sempre das palavras do velho ancião, não teve medo, e seguiu em frente. De vários lugares surgiam donativos e doações, os quais mantinham a casa em ordem, e os velhos bem cuidados.
Passados tantos anos, naquela manhã, ele sentiu falta de seu pai. Estava tomando o sol de um inverno parecido àquele quando era menino, e de quando se encontrara com o ancião. Pediu a uma ajudante que o levasse ao Horto. Sentia que precisava passar por aquele local novamente.
Com muito custo seguiram ao local. Quando se aproximava do lugar onde vira o ancião pela única vez, notou que não havia ninguém, chorou e pensou: “Será que trabalhara tanto por nada? ”, questionou-se.
A cadeira foi abrindo caminho entre as folhas secas, e no local exato do encontro, surpreendeu-se ao olhar para baixo, e ver um botão de rosas, igual ao que havia ganhado.
A mulher que o ajudava, ajoelhou-se, pegou o botão de rosas, e entregou ao velho Lucas. Por alguns minutos ele sentiu o cheiro doce da flor. Sorriu. As lágrimas vieram ao rosto. Olhou para os céus, agradecendo a Deus pela vida, pelos desafios, pelas vitórias e, principalmente pelas derrotas, onde mais se aprende.
Segurou firme a mão de mulher e depois lentamente a soltou. Sua missão estava cumprida. Num último suspiro baixou a cabeça para sempre.













