O tempo na eras antigas não era necessário aos homens que habitavam a Terra. Éramos uma sociedade, sem ser de fato, sociedade. A História surgiu e com ela alavancada - o Tempo.
Antigamente, os historiadores narram que o Tempo era um Dom para o homem. Ele se utilizava do Tempo como queria. Ele era o senhor do tempo. Dono de si, e dono do tempo e do espaço.
O tempo passou lentamente pela população antiga, devagar e sem pressa, afinal, o homem era o Senhor do “seu Tempo.” No entanto, com o advento das mudanças, como o desenvolvimento humano e econômico, o tempo passou a ser mais rígido e rápido.
O Tempo é o eixo linear progressivo e explicativo, diz a professora Raquel Glezer do departamento de história da USP. Desta maneira, no início dos tempos, o mundo girava em torno do tempo “DOM”- ou seja, o tempo era um Dom dado ao homem, e a ele competia ter o domínio do tempo. Mas, imperceptivelmente, com o desenvolvimento econômico acelerado, aos poucos tudo foi sendo alterado. E para pior.
Com o desenvolvimento, o homem precisava controlar o tempo de maneira diferente. Não bastava mais o amanhecer e o entardecer para dar norte ao tempo do homem. Assim apareceram o relógios que marcavam as transações e o trabalho humano.
O Tempo sagrado “DOM” desapareceu para surgir o Tempo mecanizado, mensurável. Era através do relógio, agora, que o homem controlava o próprio homem, entretanto, ele não sabia que um pouco mais adiante, o Senhor do Tempo, logo se tornaria “escravo do tempo”.
Deste modo, com o desenvolvimento em ritmo acelerado, o homem precisava cada vez mais controlar o tempo, imaginando-se ter ainda o domínio temporal e reger, assim, as atividades humanas.
A vida, diz a professora Raquel Glezer, começava a ser aprisionada pelo sistema cronológico. O homem, através de suas escolhas, definitivamente optaram em perder o monopólio do tempo.
A vida então começou a ser medida não mais pela existência atemporal, mas sim pela existência das horas. A vida se tornou um tiquetaque imensurável. A hora tornou-se o parâmetro da vida humana e, deste modo, começou a dominar o próprio homem.
O antes ‘Senhor do Tempo’, com rapidez de um desenvolvimento ácido, linear e veloz, se tornou o ‘Homem do Tempo’. Sua vida, então, passou a ser condicionada não mais pelo que o homem queria, mas pelo ritmo alucinante das horas, que, pouco a pouco, tomou conta do Tempo.
O homem se tornou um mero fragmento numa estrutura que ele próprio criou. O tempo da horas – agora – era o dominador do homem. O homem sucumbiu a ele próprio. O homem criou a sua própria “jaula”: o Tempo das horas – o tempo comedor do tempo.
Das épocas antigas, onde reinava o homem, hoje, a realidade chama-se tempo. E é este mesmo tempo que sinaliza o começo e o fim de cada ser-humano. O tempo finalmente se firmou como presente e imediato.
Com o desenvolvimento atual, o homem é um ser que roda na esfera temporal. Não é ele mais quem dita as ordens de sua própria vida, mas sim o tempo. O tempo, tornou-se o senhor absoluto e transformou o homem em seu “escravo”.
Hoje tudo é denominado pelo tempo das horas. Embora efêmero, o tempo dita as regras da sociedade atual. Tudo é dominado por ele: o tempo. Vivemos correndo para lá e para cá. Tudo delimitado. Tudo controlado instantaneamente. O ser-humano não detêm mais o monopólio do tempo, virou escravo dele, para que pudesse – de certa forma – desenvolver-se. Atropelou a si próprio em nome do desenvolvimento e da busca voraz pelo dinheiro.
Pais não veem mais seus filhos, ao passo que os filhos não mais se interagem com seus pais. Com a Era Pós-Industrial, onde tudo é quase virtual, o homem começa a trilhar um caminho perigoso. O de se tornar também um ser, meramente, virtual.
A vida do ser-humano, antes livre, dono e senhor do seu tempo, acabou. O homem fez escolhas, e colhe os frutos. O homem escolheu que o tempo o controlasse, mas não imaginava que o Tempo – aos poucos – se tornaria seu Senhor.
O Tempo transformou-se, deste modo, em Senhor e deus dos homens!
André Guazzelli é jornalista













