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Os problemas do excesso de exames

Por Jornal A Bigorna 25/05/2025 15:10:00 641
Os problemas do excesso de exames

Entrou com um calhamaço de resultados de exames de sangue. Estavam impressos em folhas numeradas de 1 a 83. Desperdício nababesco imprimir um resultado em cada folha de papel sulfite, em plena era digital. Qual a justificativa para tal número de análises?

Incluíam testes de função renal, hepática, pancreática, coagulação, sorologias contra bactérias e vírus, provas reumatológicas, imunológicas e todos os hormônios que o corpo humano já pensou em secretar, além do abecedário completo de vitaminas e sais minerais, da A ao zinco.

Quando perguntei que problema de saúde havia levado a tantas análises, respondeu que não tinha queixas, eram exames de rotina, pedidos na visita anual à ginecologista. Diante do meu espanto, ela argumentou: "Não paguei nada, eu tenho plano de saúde".

Todos estavam dentro da faixa de normalidade, com exceção da dosagem de antimônio, discretamente aumentada. Experimentei a sensação de desconforto que o médico vive ao deparar com a própria ignorância. A única coisa que eu sabia sobre o antimônio é que fazia parte de uma liga usada nos para-choques dos carros antigos; não tinha ideia de sua função no organismo.

Ela quis saber o significado daquela alteração. Notei a expressão decepcionada quando pedi que procurasse a ginecologista que fizera a solicitação.

Análises laboratoriais são exames complementares, recursos que a medicina oferece para confirmar ou descartar diagnósticos baseados em evidências clínicas. Poucos devem ser pedidos de rotina: glicemia, colesterol, hemograma, sorologia para sífilis, HIV e alguns outros. Repeti-los a esmo causa uma série de problemas.

Primeiro: alguém vai pagar por eles, seja o SUS, seja o plano de saúde. Por incrível que possa parecer, nossas faculdades de medicina não se preocupam em preparar os alunos para prestar atenção aos preços dos medicamentos prescritos nem aos dos exames solicitados. Os pacientes ficam com a sensação de que nada lhes custará, poucos têm consciência de que o orçamento do SUS é limitado e que os gastos desnecessários com alguns farão falta para muitos.

Em relação aos convênios é até pior: como a pessoa paga todos os meses, conclui que não fazer uso deles é abdicar de um direito adquirido. Não pensam que o dinheiro desperdiçado será dividido nos reajustes das mensalidades do ano seguinte. É como tomar banhos de duas horas sem considerar que o gasto de água virá na conta do condomínio do prédio.

Segundo: exames realizados ao acaso sobrecarregam o sistema de saúde e podem criar a necessidade de ultrassons, tomografias, ressonâncias magnéticas e angiografias e dar origem a tratamentos clínicos e procedimentos cirúrgicos inúteis ou mal indicados, aos quais nós, médicos, damos o nome de iatrogenia.

Terceiro: resultados normais muitas vezes transmitem a falsa sensação de boa saúde. Ao pedir um simples hemograma, é comum ouvir: "Aproveita para pedir todos os exames, doutor, tenho plano de saúde". Todo mundo já ouviu de um amigo sedentário que fuma, bebe e come exageradamente: "Fui ao médico, fiz todos os exames, estou ótimo". Tive um velho professor que costumava advertir: "Cuidado, cansei de ver gente à beira da morte com exames impecáveis".

Quarto: pedir excesso de exames não qualifica o profissional bem preparado, muito pelo contrário. Ao ver uma dessas listas intermináveis, fico com a impressão de que o médico não faz ideia do que procura.

Desculpe a visão pessimista, prezado leitor, mas a situação atual vai se agravar. De 1990 a 2024, enquanto a população brasileira cresceu 42%, o número de médicos quadruplicou.

O aumento se deu à custa da proliferação descontrolada de faculdades de medicina particulares. Hoje, são mais de 400, passamos à frente dos Estados Unidos (340 milhões de habitantes) e da China (1,4 bilhão). Perdemos apenas para a Índia, com cerca de 500 faculdades —para uma população de 1,42 bilhão.

Não se iludam, não temos professores para formar tantos alunos nem hospitais que ofereçam residência médica para tanta gente. A menos que implantemos exames seletivos para impedir que estudantes mal formados cheguem ao mercado de trabalho e que sejam fechadas as faculdades incapazes de prepará-los —como ocorreu nos Estados Unidos—, veremos a piora da assistência à saúde e o aumento crescente dos custos.

 

*Por Drauzio Varella

Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”

 

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