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Palanque do Zé #323 – A operação mais insana da Segunda Guerra

Por Jornal A Bigorna 21/10/2024 17:50:00 8 mins read 845
Palanque do Zé #323 – A operação mais insana da Segunda Guerra

Em 1940, a situação da guerra não estava nada boa para os britânicos. Após a evacuação de Dunquerque, o moral das tropas e da população estava em baixa, e o grande temor era de uma possível invasão das ilhas britânicas ou de seus territórios pelos alemães. Esse cenário de desespero fez surgir um plano muito insano.

Gibraltar, uma pequena península no extremo sul da Espanha, era uma das regiões mais estratégicas para o Império Britânico. Embora tenha apenas 5 km de extensão, sua localização permitia aos britânicos controlarem todo o tráfego naval que entrava e saía do Mar Mediterrâneo. Os canhões instalados na área cobriam facilmente os 14 km do estreito de Gibraltar, dificultando a passagem de navios alemães, o que irritava Hitler. 

Foi por isso que o Tampinha exigiu planos para conquistar esse território, mas os britânicos estavam cientes dessa ameaça, é claro. 

Naquele momento, a Rússia ainda era aliada de Hitler, por meio do pacto de não agressão, que envolvia a venda de enormes quantidades de matéria-prima e suprimentos para a Alemanha. Os Estados Unidos, por sua vez, limitavam-se a fornecer ajuda material, o que deixava a Inglaterra praticamente sozinha. Esse momento sombrio é bastante explorado no livro “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, de Sir Winston Leonard Spencer Churchill, o Primeiro-Ministro Britânico no período.

Nesse contexto, o Contra-Almirante John Henry Godfrey, da Inteligência Naval britânica, concebeu uma ideia completamente ousada, que foi levada a sério pelo Almirantado: criar um posto de observação secreto em Gibraltar que pudesse continuar funcionando mesmo após uma eventual ocupação nazista.

O plano consistia em construir um complexo de observação dentro do rochedo de Gibraltar, de onde seria possível monitorar a movimentação naval no estreito. O sigilo era absoluto, e a obra só começou em 1942. Operários foram trazidos da Inglaterra, trabalharam no projeto e foram enviados de volta sem sequer saber onde haviam estado. No interior da rocha, foi construída uma sala principal de 1.600 metros quadrados, com 14 metros de comprimento, 4,8 metros de largura e 2,4 metros de altura. O espaço incluía áreas para armazenar suprimentos, uma sala de rádio, um banheiro e um tanque de água com capacidade para 45 mil litros.

Os especialistas que planejaram a missão determinaram que a equipe ideal seria composta por três telegrafistas, dois médicos e um oficial. Os telegrafistas seriam responsáveis por erguer uma antena clandestina e usar uma bicicleta acoplada a um gerador para carregar as baterias que alimentariam o rádio, as luzes e o sistema de ventilação. A observação naval seria feita através de duas pequenas fendas de trinta centímetros na rocha, e as informações seriam transmitidas regularmente para Londres.

O aspecto mais sombrio do plano era que, em caso de invasão, os seis homens ficariam literalmente enterrados vivos. A Operação Tracer previa que, diante de uma iminente ocupação alemã, um muro seria erguido, selando os homens dentro do complexo, enquanto o restante da caverna seria demolido. 

Os 45 mil litros de água e os suprimentos estocados garantiriam a sobrevivência da equipe por até sete anos de guerra. Para aumentar a chance de sucesso da missão, os seis membros da equipe passariam por cirurgias para remoção de apêndices e amígdalas, além de exames detalhados para garantir que não houvesse problemas de saúde que surgissem nos anos seguintes. 

Além disso, os médicos teriam equipamentos para realizar pequenas cirurgias, e, caso alguém morresse, havia material disponível para embalsamar o corpo e enterrá-lo sob o piso de tijolos, coberto por cortiça para evitar ruídos.

O projeto envolvia um planejamento minucioso, incluindo manuais de operação e estudos psicológicos para selecionar a equipe ideal. Havia até planos para criar operações semelhantes em outros territórios estratégicos. 

No entanto, com a chegada de 1943 e a derrota de Rommel (A Raposa do Deserto) no Norte da África, Gibraltar deixou de ser um ponto vulnerável e a ameaça de uma invasão alemã à península praticamente desapareceu. Como resultado, a ordem foi dada para redistribuir os suprimentos da Operação Tracer para outras unidades, e o túnel foi selado e abandonado.

Apesar disso, a população local conhecia a história e, por décadas, rumores sobre um posto secreto britânico em Gibraltar circularam. A história acabou sendo tratada como uma lenda até que, em 1997, membros do Grupo de Espeleologia de Gibraltar, durante a exploração de cavernas, sentiram uma corrente de ar estranha. Ao removerem algumas chapas de metal corrugado, descobriram uma parede de tijolos. Ao derrubá-la, encontraram a sala principal da Operação Tracer.

Posteriormente, veteranos da época confirmaram que a sala era, de fato, parte do posto secreto, que, felizmente, nunca foi utilizado. 

Manter seis pessoas presas por anos em uma sala subterrânea me parece uma péssima ideia, não só pela questão de falta de salubridade do ambiente, como pelo aspecto psicológico e de interação interpessoal. Se o plano de fato tivesse sido executado, é altamente improvável que qualquer um daqueles homens saísse de lá vivo, ou ao menos em boas condições.

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