Por André Guazzelli: Estes dias, pela manhã, andando (a mando da minha querida psicóloga; isso mesmo, devo ser um pouco louco), pelas ruas passei defronte à Igreja Nossa Senhora da Dores. Entrei e fiquei lá um tempo. Ali. Simplesmente sentado olhando não sei o quê, pensando sei lá o quê, pois pensamos em Deus somente quando estamos tristes, e nunca nos lembramos Dele quando estamos felizes.
Depois de um tempo, ao sair, coincidentemente ou não, um jovem deve ter me reconhecido e me disse: “já li seu livro. Você acredita em Deus?”. Pensei um pouco e timidamente disse ao jovem que não sabia. Ele me deu adeus, e creio que saiu um pouco decepcionado com minha resposta. Confesso que chorei depois, mas não sei o porquê, na mera coincidência que é Deus, para que Ele consiga ficar no anonimato.
Em casa, enquanto lia, recordei-me do escritor Salman Rushidie (autor de Os Versos Satânicos). Ele um dia disse que escrevia, em parte, para preencher com outros sonhos aquele espaço destinado à Deus, o qual se esvaziara dentro dele.
Posteriormente lembrei-me de um artigo de Rubem Alves, no qual ele falava de Deus: “Perguntaram-me se acredito em Deus...Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza (...) e continua: "O senhor acredita em Deus?" Houve tempo em que era mais fácil acreditar em Deus. Hoje até o Papa se atrapalha. Na sua visita ao campo de concentração de Treblinka perguntou o que não deveria ter perguntado: "Onde estava Deus quando esse horror aconteceu?" Heresia porque a pergunta silenciosamente afirma que Deus não estava lá. Se estivesse não teria deixado aquele horror acontecer. Pois Deus não é amor e todo poderoso? Se estava lá e deixou acontecer ou Ele não é amor ou não é todo poderoso. Por outro lado, se Ele não estava lá Ele não é onipresente...
“Se Deus existe e é forte, como perdoá-lo por permitir que aconteça o horror de sofrimento que não deveria acontecer? Mas se Deus é fraco ou não existe, então seria possível perdoá-lo e amá-lo. Aí choraríamos e diríamos: "Se Deus existisse e fosse forte isso não aconteceria..." A gente fica, então, com saudade do Deus que não existe. Mas eu não disse nada disso para aquela senhora. Apenas perguntei de volta, pedindo um esclarecimento: "Acreditar em qual Deus? Há tantos... Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos... Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar... Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal... Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres... E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?" disse Rubem Alves.
Já eu, não sou um construtor de altares, mas tento construir palavras para que pessoas que não sabem, como eu, se Deus existe, consigam, pelo menos, lá no fundo do túnel encontrar uma luz, ou uma maneira menos triste de viver e pensar o mundo com ou sem Deus.
André Guazzelli é escritor do livro Contos e Outras Histórias.













