Avaré apaga 157 velinhas. Tantas...
E ao mesmo tempo tão poucas, considerando o contexto histórico. Não faz muito tínhamos abolicionistas e escravocratas por aqui. Houve um momento que os chamados “homens de bem” resolveram atear fogo nos documentos do período, “para apagar essa mancha da história da humanidade”.
Está num dos livros da Flora Bocci. Que são 100, 120, 150, 200 anos? Qualquer um de nós, os que encostamos perigosamente nos setenta, se olharmos para o passado diríamos de uma Avaré que cabia na palma do olhar, com suas ruazinhas povoadas de charretes, cães soltos, moças de sombrinhas, latas para o lixo nas calçadas, afiadores de tesouras e vendedores de sedas finas; defunto na sala de estar...
Galos e pêssegos pelos quintais, vitrola e Carlos Gardel, Ford bigode e lampião a gás; raspadinhas e Fullgor nos dedos pálidos do gajo à espera do cinemaScope; Cattani, Junqueira e Fiúme.
Saio andar por aí. Alguns amigos, poucos, porém, “do meu tempo”, aquele de bêbado segurando postes e seresteiro que perdeu a voz.
Como as pombas no pombal parnasiano vai-se uma; depois outra... Algumas retornam, muitas ficam pelo caminho. Os amigos de antanho estão se desfazendo na paisagem do tempo.
Alguém, de repente, chega: sabe aquele seu amigo de copo e futebol? De carteado e conversa fiada? De apuros e aventuras?
Pois é...
Observo as pessoas ao meu redor: rostos jovens e desconhecidos. Somos de universos analógicos e digitais. E não há culpa de lado algum, se nossos códigos são diferentes. Processamos o entendimento, mas não dá liga. Há decodificação, mas não significação.
É outra a cidade, outras gentes, outros fatos, outras angustias incorporadas nas já existentes.
Convém dizer, porém: mesmo maltratada a cidade está melhor; o mundo, aliás, está melhor – fora a violência - com seus avanços tecnológicos, científicos. A medicina faz milagre. Antes, um canyon para a retirada da vesícula, hoje alguns furinhos e o paciente pode bater uma bola e uma feijoada no dia seguinte.
Deixamos de pisar na lama, a luz é elétrica, a garrafa é pet, e a água não mata nossas crianças.
A inteligência artificial dita a realidade. Do Vale do Silício nos dizem que daqui a pouco poderemos viver eternamente, trocando órgãos do corpo como mudamos de camisa. Me veja aí um coração de 20 anos em dez parcelas iguais no cartão. Um combo com rim e pulmão custa quanto?
Avaré envelhece. Mas não parece. O que está faltando a essa jovem senhora é uma demão de cuidados. Não é tão difícil tirar-lhe as manchas, as cicatrizes, as rugas. Um cirurgião competente, com alguma boa vontade, resolveria isso num piscar de olhos. O diabo é que cirurgião com competência está em falta no mercado.
De nossa parte, os do pombal, a receita é entender Heráclito: saber da impossibilidade de banhar- se duas vezes num mesmo rio; entender que são outras as circunstâncias e daí desenvolvermos a capacidade de entender o novo, desafiando o desconhecido e as dificuldades, como o aquele zagueiro clássico que assediado nunca dá chutão, mas mata no peito e sai jogando.
Precisamos entender que o tempo é outro. Temos de evoluir com ele. Ontem, Olivetti; hoje, um desktop... E uma nova narrativa.
Por José Carlos Santos Peres – A Voz do Vale - Avaré













