Numa manhã qualquer.
O telefone toca, o prefeito olha. Um número desconhecido em seu telefone celular particular. Acha estranho, pois tem todos os amigos na lista. No entanto, as dúvidas o apreiam e ele atende.
“Alô? ”
Do outro lado surge uma voz estranha e cômica. O prefeito parece ter a noção de estar conversando com algum personagem ficcional, tamanha a desproporção fônica da voz do outro lado.
“Alô, prefeitão. Aqui é o Cabeça de Minhoca”.
“Quem? ”
“Ô dotô, o senhor já se esqueceu de mim?”
“Não, não, desculpe, mas não estou reconhecendo, a....”
“O Minhoca aqui do bairro Dos Desesperados”.
“Ah, sim” – diz desconcertado –“Desculpe senhor Minhoca, é que...”
“Ô meu Rei. No precisa se desculpar não, senhô. Pelo amô. Eu é qui tô ligando pra te dar os parabeins pela sua eleição. E olha, dotô. O bairro todo aqui tá feliz pelo sinhô, viu. A galera tá num auê, principalmente, porque na eleição o sinhô prometeu umas coisas aqui, e tá todo mundo apreensivo. E olhá lá, dotô, a galera tá esperando sua visita. ”
“Claro, claro, senhor Minhoca. Vou sim. Tá meio corrido o trabalho, mas assim que eu puder vou até os senhores. ”
Do outro lado o prefeito ouvi aplausos.
“Ôhhhh. Aí sim, sinti firmeza. A galera ouviu porque eu puis nu viva voiz dotô. Firmeza.”
“Claro. Diga a eles que retribuo com um fraternal abraço. ”
“Um o quê dotô? Frater...?
“Nada, nada. Deixa pra lá. Mas diga que tenho todos em meu coração. ”
Do outro lado mais alegria e aplausos.
“Dotô. Joia, belezera. Olha aqui, senhô. O pessoal tá falando que vai ter carnaval e tão tudo alegre. Tem gente que já tá costurando as fantasia. O senhô imagina? Felicidade deles? Olha dotô, mas tem uma coisa. Tem umas mulher chata aqui, reclamando que não tem médico, não tem remédio, essas besteiras,sabe. Mas pode deixar aqui com o beque, que eu acerto tudo. Olha dotô, sem querê incomodá. Dá uma judinha aí pro irmão. Vai ter roçada na cidade, né? Intão. A gente pode trabaiá na empresa qui fizé o serviçu aí. Tamo na amarguraa aqui dotô. Mas não esquenta o breque não sinhô. Aqui do lado tem o Minhoca, e o sinhõ sabe qui pode conta cum ele. ”
“Obrigado senhor Minhoca. Muito obrigado. Tenho uma reunião, então preciso desligar. Abraço a todos a sua volta. ”
Tu...tu..tu...tu...tu
“Ixi. A ligação caiu pesoá. Nem tive tempo de fala qui puiz a praca nova que ele mandô fazê . Pessoal, tudo bem, o prefeitão mando todo mundo dá uma vorta. E disse que carrnavá nóis vái tê pra pulá.”













