Jornal A Bigorna
Jornal A Bigorna
Jornal A Bigorna
  • NOTÍCIAS
  • LITERATURA
    • Detetive Tango
  • LITURGIA DO ANDRÉ GUAZZELLI
  • PALANQUE DO ZÉ
CLOSE
  • SEC
  • FEAP

“O dia em que acariciei a barba de Fidel e deixei de acreditar nele”

Por Jornal A Bigorna 27/11/2016 16:20:48 1042
“O dia em que acariciei a barba de Fidel e deixei de acreditar nele”

Sentimentos contraditórios. É isso que eu sinto ao escrever o obituário para quem, em um ensolarado 2 de dezembro em Havana, anunciou de sua tribuna na Praça da Revolução, o meu nascimento.

Fidel Castro pode se dividir em dois. O interno —ou seja, o que diz respeito unicamente a Cuba e aos cubanos— e o externo, o internacional. Mas eu prefiro falar dessa primeira versão, do meu Fidel pessoal.

Como todas as crianças, eu queria também ir ao parque para jogar beisebol com meu pai.

Mas isso nunca foi possível e cada vez que eu pedia, tinha de me contentar com a mesma resposta: "Você deveria estar orgulhoso porque Almeida [meu pai], ao lado do comandante em chefe, está ocupado cumprindo tarefas importantes para a pátria".

Era óbvio, pelo menos para mim, que eu não fazia parte desse país em apuros e, pela lógica infantil, comecei a sentir uma espécie de admiração e rivalidade em relação a Fidel e ao que ele simbolizava.

No entanto, por mais que eu tente explorar minhas memórias de infância, não consigo me lembrar do momento em que ele entrou na minha vida.

Mas eu me lembro bem da minha decepção diante da primeira mentira que ouvi daquele homem, vestido de verde oliva, a quem os mais velhos chegaram a comparar com Deus.

PROMESSA

Foi no início de um verão e eu voltava da escola. Meu pai estava na rua, encostado em um jipe GAZ-69 verde, estacionado bem diante da garagem da minha casa.

Ele sorriu quando me viu, eu corri em sua direção e ele me beijou, permeando meu abraço com seu perfume característico.

Então notei que dentro do carro estava sentado Fidel, a causa de todos os meus problemas infantis.

Pedi que ele me deixasse acariciar sua barba, e ele não somente autorizou como também me prometeu, com um meio sorriso, que quando eu terminasse a lição de casa, poderia dar um passeio no seu carro.

Seria injusto não dizer que andar com Fidel era, na época, o maior presente para qualquer cubano, e era minha oportunidade de perdoar o meu rival.

Mas quando eu terminei, com velocidade ultrassônica, minhas tarefas escolares, Fidel Castro tinha fugido e, embora meus pais tivessem tentado me explicar, naquele dia eu parei de acreditar que ele era aquele herói honesto, valente, decidido e que amava as crianças.

'EU VOU SER BREVE'

Eu quase consigo entender a gama de sentimentos gerados pela morte deste homem que simbolizou o poder.

Muitos o amavam, talvez muitos mais o detestassem, porque Fidel Castro personificou a polêmica, a devoção, a divisão, a vaidade, a insolência, a desunião, o vício, o pecado, a crueldade, a crença, a bondade, a sabedoria, a bondade, a religião, o ateísmo, a loucura, a injustiça e a infâmia.

Foi um homem que em vida julgou sem tremer e hoje comparecerá perante o juízo da história, porque a morte nos faz iguais, incluindo até mesmo o mais diferente.

Eu não acho que a morte deste homem pode resolver e acabar de uma vez com os problemas que nos afligem como nação.

Se fosse assim, hoje também estaríamos levando à sagrada sepultura os muitos e muitos cubanos que perderam suas vidas no mar, a caminho para a liberdade.

Ele morre. A barba lendária de sua verdade e nos enganou com sua frase de sempre "eu vou ser breve".

Longevidade. Esse absurdo foi o pior de seus erros, porque, como dizia minha avó: "Não há nada de épico, e quiçá de prudente, na morte natural".

A BARBA LENDÁRIA

A partir de hoje, serão tiradas das trevas as atrocidades cometidas por esse castrador de sonhos, como aventura insólita de um Fidel que insistiu na dragagem do pântano de Zapata para cultivar arroz.

Também se passará a discutir com clareza os seus sucessos. Não nos esqueçamos de que Fidel trabalhou toda a sua vida esculpir sua imagem para colocá-lo na história.

E seremos testemunha de seus excessos, erros e segredos. Estamos parados bem na linha de chegada. Começa a era pós-Castro. E devemos curar as feridas, colocar fim na tristeza e em tudo aquilo que nos divide como país.

Com certeza, Fidel Castro foi um estadista que fez da divisão ideológica sua plataforma e sua fortaleza, mas eu só consigo me lembrar de seus dentes amarelados e sua lendária barba com um monte de pelos duros cheirando a tabaco.

*Juan Juan Almeida é um escritor dissidente cubano que vive em Miami. Foi preso em Cuba por se opor ao governo. É filho do comandante Juan Almeida Bosque, companheiro de Fidel e Raúl Castro na Serra Maestra.

Compartilhar

Copiar link

E-mail

WhatsApp

Telegram

Facebook

Linkedin

X

Bluesky

Veja mais
Outras Notícias
Avaré
Bairro Terras de São José terá viaduto; obra é orçada em 90 milhões
4-setembro-2026 146
Avaré
Moradores do bairro Terras de São José receberão  nova unidade e saúde (UBS)
4-setembro-2026 304
Literatura
Associação Espírita Arco Íris realiza, hoje, dia 09 , caminhada em prol ao Dia Mundial de Conscientização  do Transtorno do Espectro do Autismo
4-setembro-2026 124
Avaré
Prefeito Roberto Araujo anuncia projeto que valoriza profissionais da Educação
4-setembro-2026 232
Acidente
Acidente com três carretas, bitrem e carro interdita a Raposo Tavares no interior de SP
4-julho-2026 2329
Avaré
Câmara reprova contas de Jô Silvestre
4-julho-2026 2131
Avaré
6º Simpósio do Autismo, que acontece no dia 24 de abril, está com inscrições abertas
4-julho-2026 1673
Avaré
Vereador esclarece licitação de R$ 39 milhões para merenda em Avaré,  critica "pânico" na rede e críticas tendenciosas com motivações políticas
4-julho-2026 3622
Avaré
Barra Grande terá rodeio em cutiano no domingo, dia 12
4-julho-2026 775
Avaré
Avaré recebe etapa do Circuito Interior de Jiu Jitsu
4-julho-2026 1782
Siga-nos
Facebook
Instagram
Whatsapp

Publicidade

  • fsp
  • inimed-covid-19
  • atpq
  • mare
  • cameras
  • FEAP
  • SEC-aquatico-
  • pontodentes
  • onecenterlateral
  • cafe
  • acia
  • arcoiris
  • SOS CARTUCHOS
  • testando
INFORMAÇÕES DO JORNAL
INFO

Jornal A Bigorna

Jornal eletrônico- Avaré e Região
contato@jornalabigornaavare.com.br
www.jornalabigornaavare.com.br

Categorias
C
  • Literatura
  • Esporte
  • Cultura
  • Política
  • Geral
  • Polícia
  • Palanque do Zé
  • Saúde Pública
  • Artigo
  • Editorial
  • Educação
  • Papo com a Magali
  • Administração Pública
  • Avaré
  • Internacional
  • Nacional
  • Entrevista
  • Região
  • Política Nacional
  • Política Internacional
  • Saúde
  • Crônica
  • Liturgia do André Guazzelli
  • O Palhaço
  • Detetive Tango
  • Conto
  • Poesia
  • Moda
  • Poesia
  • Acidente
  • Brasil: Polícia
  • São Paulo
  • Caso de Polícia - SP
  • Justiça ⚖

© Copyright 2025. Todos os Direitos reservados. | Desenvolvido por Officeweb

  • INÍCIO
  • Política de privacidade
  • NOTICIAS