KIEV-UCRÂNIA
Dois dias depois.
Após desembarcar de um voo desgastante, o Chefe passou direto sem ser incomodado pela Alfândega. Passaria apenas dois dias. Era a regra da Seita. Após o Dia de comemoração do aniversário, os chefes de cada Casa da Seita se encontravam em um determinado lugar. Desta vez, o Chefe-Maior, que ficava no Estados Unidos, havia escolhido a cidade de Kiev, na Ucrânia, onde se realizaria a reunião.
Cansado e abatido, o chefe foi direto para o hotel que a Seita havia reservado. Com ele o gigante negro, desta vez de paletó e gravata carregava a mala até o quarto. Quando chegaram no penúltimo andar eles entraram no quarto 502, passaram o cartão e abriu-se a porta de uma suíte de mais de 100 metros quadrados, de intenso luxo, mas que ainda guardava a história do Velho continente.
O negro deixou a mala foi até o banheiro e verificou se a água estava quente. Atrás o chefe mal-humorado esperava. Tirou as roupas e o negro o pegou no colo, pousando-o suavemente na banheira com canfora e outros perfumes.
A reunião seria logo pela manhã, num prédio luxuoso de Kiev, localizado na Praça da Independência. O local mais conhecido da Capital Ucraniana. Ele ficou por muito tempo se banhando, e, logo depois, chamou o súdito que rapidamente o retirou colocou-lhe o pijama e com seus enormes e grossos braços o carregou até a cama. Perguntou ao mestre se precisaria de mais alguma coisa. Com a negativa se retirou e foi para uma cama de solteiro mais afastado.
Deitado, o chefe estava furioso. Não queria estar ali. No entanto, não tinha escolha. Assim que a reunião encerrasse partiria rapidamente. Não podia perder muito tempo ali. Tinha um assunto que o incomodava naquele momento e ele sentia que haveria problemas se não tomasse uma atitude rapidamente.
São Paulo – Brasil
Dois dias antes.
O silêncio pairava, e Saulo notava uma onda de temor nos dois que ali estavam e haviam prometido ajudá-lo. Ao fim do café o ministro ajeitou a gravata olhou fixamente para Saulo e lhe questionou:
“Antes de começar a lhe dizer qualquer coisa do que você procura e, deste modo, poder lhe ajudar, quero saber de uma coisa. Você sabe o que é a Pedra de Roseta? ”
Com a negativa de Saulo, o ministro olhou para o escritor, que usava um paletó desgastado de lã, calças puídas e um sapato preto quase descolorido. Estava com o mesmo semblante do dia em que havia recebido Saulo.
“Conte a ele Jean Pierre. ”
“Bem, primeiro você deve saber como o ministro disse. A palavra estela provém do termo grego stela, que significa "pedra erguida" ou "alçada". A palavra entrou no uso comum da arquitetura e da arqueologia para designar objetos em pedra individuais, ou seja, monolíticos, nos quais eram efetuadas esculturas em relevo ou textos. A sua função essencial era veicular um determinado significado simbólico, fosse este funerário, mágico-religioso, territorial, político ou propagandístico. A Seita possui esta Pedra, e a cultua mundialmente. ”
Depois da explicação técnica do escritor, o ministro se pôs em pé e começou a dissertar o que era a Seita, os rituais, o que faziam e o tamanho do poder que tinha no mundo todo. Saulo ficou praticamente congelado e, ao mesmo tempo, assustado e questionou quem era àquele homem de cadeiras de roda que ele vira matar prostitutas.
O ministro pigarreou, olhou um tanto quanto assustado para o escritor, suspirou e, por fim disse:
“Àquele é um dos homens mais poderosos aqui no Brasil, meu amigo”. Ato continuo, ergueu a barra da calça de sua perna esquerda.
O que Saulo viu o deixou apavorado.
“Vê? ”
“Sim, claro, ministro, mas como o senhor perdeu esta parte da perna? ”
O ministro voltou a se sentar e contou a história de 20 anos atrás, quando resolvera deixar a Seita, por não concordar com os métodos ortodoxos de seus membros. Ele ainda atuava no STF, era membro e grau 33 da Maçonaria e estava cansado de tudo aquilo quando revelou que iria deixar a Seita, todavia alegava que levaria o segredo para o túmulo, fazendo juras a todos, naquele momento, que, jamais abriria a boca para quem quer que fosse sobre tudo o que sabia. Como era presidente do STF, os membros acharam por bem, não o matar, e o deixaram ir, mas não sem um castigo.
“Quando me levantei, um homem cruel, que é o pai do homem de cadeiras de roda que você já viu, mandou-me sentar. Por trás recebi uma pancada na cabeça. Fui acordar quase três dias depois dentro de um hospital. Sedado e recebendo muito medicamento. Mesmo assim sentia dores terríveis. Quando tirei o lençol foi que notei que haviam amputado minha perna e colocado uma de plástico, que, só depois troquei por esta mecânica. Do lado de minha cama havia um cartão com a Pedra de Roseta de um lado, e uma mensagem que dizia: “Você está liberado agora. Mas sabe que se abrir a boca, não o pouparemos. Isto que foi feito a você é somente um aviso para que leve por toda a sua miserável vida”.
Quando Saulo olhou mais atentamente para o ministro, o semblante rigoroso e sério havia sumido, dando lugar a uma face melancólica e pálida.
Lágrimas escorriam dos olhos do ministro.













