A noite estava suave e densa. A limusine havia sido trocada por outro carro, tão belo e luxuoso como uma Ferrari. Eles estacionam num dos melhores restaurantes que o líder gordo adora. Só o fato de jantar ali já lhe apetecia o coração de pedra que carregava dentro de si.
O manobrista pegou o carro, o chefe sai com o negro ao lado, e os dois seguranças ficam do lado de fora. Seu coração ainda pulsava de emoção de ter feito um ato tão cruel, e isso o excitava.
Sentaram-se à mesa que sempre lhe era destinada, e o líder comeu um pouco de tudo. Depois de tantos entreveros, viagem, problemas, ele merecia uma noite regada a muita comida. Afora o fato de ter de ir almoçar na casa de seus pais amanhã, já lhe revirava o estômago, mas ele era um bom filho para o velho casal, e eles estavam com saudade do seu “gordinho”.
Ele tinha vontade de enfiar uma faca no pescoço de sua mãe quando ela o chamava de gordinho.
Após o delicioso jantar pediu ao motorista que lhe deixasse em casa. Há uma semana não via suas filhas e sua esposa. Ela era uma mulher tolerante. Bela. Professora do ensino básico e adorava crianças. A única cobrança que ela fazia constantemente era uma presença maior dele em casa, alegando que sabia que ele tinha muitos negócios, mas que a família era um lastro de amor.
Amor. Ele ri.
NA CASA DO MINISTRO
Quando chegaram à casa do Ministro depararam-se com o portão arrombado. Graças a destreza do motorista, conseguiram chegar antes da polícia.
A dupla pulou fora do carro e correu rapidamente em direção à sala. Saulo e o escritor demoraram mais, pois não achavam a maçaneta; quando olharam para trás, a moça com um aparelho destravou as portas. Só assim, conseguiram sair e seguir em direção a Mansão.
O Especialista olha para a parceira.
“Merda. Deveria saber que isso poderia acontecer. Temos que levá-lo ao nosso centro. Ele ainda respira. Temos chances.
Os dois atrasados chegaram e viram a mulher caída com um tiro na cabeça, e, logo depois, o Especialista pegando o ministro no colo, sem os olhos.
Ele se virou para a parceira.
“Vamos! Não temos muito tempo”.
Enquanto isso o escritor vomitava na varanda da casa.
O Especialista que tinha uma cobra tatuada em torno do braço chegou perto dos dois dizendo para voltarem para a casa de Saulo e esperarem ele fazer contato.
“Mas vocês vão onde? ” – Questionou Saulo. – “Você não tem ideia. Mas tentem se proteger. Olho vivo. Durmam em algum lugar seguro. Vamos Tina. ”
Eles saíram numa arrancada brusca. Saulo olhou para o escritor que ainda tentava se recompor.
“Melhor sairmos daqui, antes que a polícia apareça.”.
Os dois pegaram um transporte público e demoraram horas para desembarcar no ponto. O trânsito estava caótico.
***
Em casa, o chefe era um homem de família. Sua esposa de trato impecável já estava de robe quando ele chegou. Abraçou-a e beijou-a.
“As crianças? ”
“Ah, amor já estão deitadas. Amanhã levantam cedo, você sabe, a escola é puxada para elas. ”
O homem negro vai até a suíte do casal prepara o banho do mestre e sai. O ritual na casa era sempre assim. Para a esposa do líder, o negro era surdo-mudo, deste modo, ela apenas agradecia com gestos de cabeça. Após o banho, ela o ajudou a sair da banheira, passou creme em seu corpo e foram para cama. Minutas de carinho que ele adorava com sua esposa. Depois fizerem amor. Ela virou-se do lado e logo pegou no sono.
Embora cansado, o sono do chefe foi entrecortado. Acordava pensando no que fizera. Àquilo era o regozijo de sua vida. Mas o plano maior estava por vir. E era somente nisso que ele precisava ficar focado naquele momento.
Por volta das 4 da manhã, enquanto a mulher dormia, deu um telefonema.
“Ela está aí como mandei? ”
A voz do outro lado confirmou e aquilo o deixou extasiado. Depois deste passo, a meta principal começaria a ser realizada conforme planejava há anos.
“Façam. ”
***
Quando o sol ainda não raiava, mas a primavera se aproximava, o cheiro almiscarado das flores deixava a cidade um pouco menos cálida.
O escritor dormia no sofá, enquanto Saulo se remoía em sua cama. Não conseguia dormir.
Pensava. No que fui me meter? Pensava e ao mesmo tempo uma onda de pavor percorria suas entranhas. Queria ter sua vida de volta. Um mero aposentado. Apertou as fronhas e chorou.
De repente um estupor estraçalhou o vidro de sua sala. O barulho foi tremendo que quando chegou a sala o escritor estava debaixo da mesa.
“Eu disse para ficarmos em outro lugar”.
Caminhando lentamente Saulo avistou uma caixa de tamanho médio, envolvida fortemente por fios.
“Vá na cozinha. Pegue uma faca. ”- disse ao escritor.
“ E se for uma bomba? ”
“Se fosse nem estaríamos mais aqui. ” - Retorquiu.
O escritor voltou com uma faca e deu-lhe. Ele cortou rapidamente, mas teve dificuldade em abri-la. Estava muito bem fechada. Com a ajuda do escritor eles conseguiram, enfim, abrir a caixa. A força que fizeram jogou o escritor para trás quando, por fim, conseguiram desatá-la.
O pavor tomou conta de Saulo. Seu rosto esbranquiçou-se e sua vista ficou turva. O mundo parecia girar. Um grito de pavor tomou conta de sua voz, e ele apenas resmungava...minha filha...por quê...minha filha.
O escritor chegou mais perto e o abraçou e Saulo chorou intensamente.
A cabeça de sua filha estava dentro de uma caixa de papelão.
Por sua culpa.













