Assim que receberam a caixa com a cabeça da filha de Saulo, em pouco tempo o escritor lhe deu calmantes e ele dormia. Enquanto isso Jean Pierre ligava para o Especialista, num telefone via-satélite que ambos tinham, contando o fato.
Do outro lado, o Especialista foi lacônico.
“Não há o que fazer e não deixe o seu amigo ir até a casa da filha, eles podem ter montado uma emboscada. Daí os dois morrem. Estou com muitos problemas aqui com o Ministro, mas assim que tudo se acalmar eu entro em contato. Infelizmente vocês terão que dar um jeito de enterrar a cabeça da pobre menina. ”
Jean Pierre desabou na poltrona e começou a fumar um cigarro atrás do outro. Não comiam há tempos. Foi até a cozinha e preparou algo rápido. Depois viria o pior. Convencer Saulo a enterrar apenas uma parte de sua querida filha. Ele sentia que as coisas estavam piorando. Comeu. Deixou um resto de comida, sentou-se na poltrona e chorou.
Era por volta de 14:00hs quando Saulo despertou. Ele foi caminhando como um zumbi até à sala, onde o escritor estava. Derrubado e arrasado.
Ambos se entreolharam.
“Destruíram minha vida! ”
O escritor levantou-se deu um pouco de água ao colega e o fez sentar-se.
“Veja bem vou explicar o que temos que fazer. Infelizmente, não há volta para o que houve. Foi uma tragédia. Mas se nós perdermos a cabeça é exatamente o que eles querem. ”
Uma raiva súbita tomou conta de Saulo. Ele cerrou os punhos e fixou o olhar na caixa.
“Agora tenho que me vingar. E preciso de vocês. ”
O escritor assentiu e explicou o que deveriam fazer.
À noite no cemitério da Boa Vontade, os dois quebraram o cadeado e abriram um pequeno buraco numa capelinha que era da família de Saulo. Lá estavam todos os seus ancestrais. Docilmente ele depositou a caixa ao lado do caixão de sua mãe e chorou compulsivamente. Ficou ali por algum tempo. Lembrou-se da infância da sua pequena, da ex-mulher, de uma vida que sonhara tanto, e, que, pouco a pouco foi sendo desmanchada no ar. Sua maior relíquia era sua filha. Linda, bela, exultante e sonhadora. Chorava com tanta com que sentiu quando o escritor colocou as mãos em seu ombro.
Ele olhou para o colega que tinha os olhos embargados pelas lágrimas.
“Sinto muito por sua perda. Nunca tive filhos, mas entendo bem o que você está passando. Estarei ao seu lado, meu caro. ”
Eles se abraçaram como se fossem amigos há vários anos. Em seguida, o escritor tirou o celular do bolso e mandou uma mensagem criptografada para o Especialista.
O que faremos, agora?
A mensagem foi rapidamente respondida.
Nada. Neste momento, eles pensam que venceram. Fiquem onde estão. Não correm perigo, tenho um amigo que sempre passa pelo perímetro de onde vocês estão, e, se houver qualquer suspeita, na hora ele me acionará.
Ele já esteve já quitinete onde a filha de seu amigo morava. Eles sumiram com o corpo. Ela deixou uma carta sobre a mesa dizendo adeus ao pai e aos amigos. Ela foi forçada a fazer isso, para que não haja indícios de crime. Vocês não devem ir lá.
Até breve.
O ALMOÇO
A casa do pai do Chefe era construída em estilo Vitoriano, um verdadeiro palácio. O Chefe chegou com a esposa e os filhos quase na hora do almoço. Não queria ter o desprazer de ter que se sentar por muito tempo com seu pai.
Estavam todos na área dos fundos.
O Chefe chegou perto da mãe e lhe deu um beijo. Ela exultante como sempre, o chamou mais uma vez de gordinho.
O almoço foi um belo buffet servido por uma das melhores empresas da Capital. Tinha de tudo. O pai sentado numa cadeira estofada, respirava com ajuda de oxigênio, e, quando olhava para o filho, ele entrava na mente do homem e exalava o ódio que sentia por àquele nojento que o sucedeu na Seita.
Enquanto as mulheres animadas conversavam sobre a vida em família, o Chefe foi até o pai e sorriu.
“Você não presta, seu canalha. ” -Disse o pai exalando uma tosse de anos de clube de charuto.
O filho voltou a sorrir e disse-lhe:
“Hora, hora, hora. Mas quem me diz isso, seu velho bastardo. ”
“Por que você matou o Ministro? Ele era meu amigo e jurei que jamais lhe tiraria a vida. ”
“Cale a merda de sua boca, velho escroto. ”- saindo com a cadeira em direção às filhas onde foi brincar de bola com as crianças.
A tarde de sol, de repente se transformou num dilúvio de água intermitente, e todos foram para a sala de estar.
Pouco tempo depois, o celular do Chefe tocou.
Pelo identificador ele viu que era dos Estados Unidos. Pediu licença a mãe e foi até o banheiro. Eles não pronunciavam o nome de ninguém pela linha de celular.
“Sou eu. ”
Do outro lado a voz do que parecia ser um homem combalido lhe falou rapidamente.
“Amanhã. Pegue o jato e esteja aqui antes do almoço”.
“Sim, senhor. ”
Ele saiu do banheiro e sorriu.
Tudo estava indo como ele planejara.













