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“Terra Selvagem” – Capítulo 3

Por Jornal A Bigorna 19/05/2016 23:12:46 1758
“Terra Selvagem” – Capítulo 3

Acordei com o Celsão me olhando. Vi que estava em minha cama, deitado e com ataduras na cabeça e joelhos. Ao lado uma mulher simpática sorria e perguntava como estava me sentindo. Até entender que meu amigo tinha contratado uma enfermeira e que eu ficara três dias desacordado foi um verdadeiro babalaô.

Somente à noite e mais calmo, na sala foi que conversei com Celsão à respeito do assunto.

“Olha só no que você quase se mete, velhinho.”- disse.

Mas não entendi e retruquei:

“Meto-me? Quem me pegou? Quem fez o boletim e está com as investigações? E veja, sou uma testemunha ocular. ”- disse quase gritando.

Celsão sentou-se do meu lado e explicou o que houvera depois de eu ter desmaiado. Segundo ele, a primeira viatura a chegar foi a dele. Quando me viu caído ali, me pegou colocou na viatura, e deixou o colega lá, enquanto me trazia para casa. Contratou a enfermeira, que tinha habilidades fantásticas e cuidou de mim como um filho.

“Amigo. Deixe te falar uma coisa. – dizia baixo e num tom aveludado de sua imponente voz. – Você não viu nada, sabe por quê? Porque não houve caso algum. Nem B.O, nem corpo, nem nada, entende? Quando você estiver melhor, nós conversamos”.

Ele abaixou a cabeça e ia saindo quando o interpelei.

“Negrão. Não sou trouxa, e tem coisas que você não está querendo me dizer. Mas saiba de uma coisa, eu vou por minha conta e risco. Não estou louco, e há algo de muito podre sendo encoberto. Obrigado pelo apoio.”

Ele fez um gesto com a cabeça e se virou. Abriu a porta e quando ia fechá-la, olhou-me de soslaio e disse:

“Por favor. Quero você como um irmão. Estou tentando apenas te proteger. Desculpe. Sabe que não posso fazer nada.”

Levantei-me e gritei: “Mas poderia me dizer o quê está acontecendo, porra”.

Ele fechou a porta e ouvi lá embaixo o rugido a viatura   que partia.

Fiquei mais uma semana com a simpática enfermeira e depois a dispensei. Estava, novamente, em forma. E, agora como sabia que as coisas eram grossas, também iria engrossar o caldo.

Sentei-me e liguei para o Diabo Loiro.

***

 

Dois dias depois, Celsão voltou e me deu de presente duas passagens aéreas para o Rio de Janeiro.

“Toma velhão. Vai refrescar um pouco a cabeça. Ganhei de uns bicheiros. Você sabe como funciona. Quando voltar você estará melhor. Tenho certeza”.

Conversamos mais um pouco e não disse nada ao antigo parceiro que havia acionado o Diabo Loiro. Dentro de poucos dias, ele disse que me retornaria. Você só conseguia fazer contato com o “Diabo” através de e-mails. Ninguém sabia onde ele ficava. O “Diabo” já me ajudara em vários outras ocasiões, e sabia que nesta, ele não me deixaria na mão. Agradeci pelas passagens e, verdadeiramente, comecei a pensar em ir à praia carioca, enquanto minha fonte fazia seu trabalho.

***

 

No outro dia estava embarcando para a cidade Maravilhosa.

Quando o avião pousou fui acordar. O calor estava escaldante.  Ficaria por três dias. Tempo necessário para não ficar roendo as unhas, e tendo chiliques de nervo à espera do resultado do trabalho que encomendara. Há tempos não viajava e, precisava dar uma distraída, saindo daquele Sicário.

Como sou uma besta, logo no primeiro dia fiquei chapado de cerveja e esqueci-me do protetor solar. No outro dia parecia um camaleão de vermelho. Fui até o quiosque que ficara no dia anterior. O sol continuava fervilhando, mas antes, desta vez passei os devidos protetores.

Os cariocas, em geral, sabem quando alguém não é da praia. Era nítido. Só olhar para minha cara de jacaré avermelhada que notavam. O dia começou cedo, e a cervejada também.

Além da ótima amizade que conquistei com o dono do local, tinha também naquele sábado ensolarado um pagode para animar os fregueses. Não iria ficar muito tempo, mas resolvi permanecer, ao notar uma morena exuberante que acabara de chegar. Eu, um velhão fora de forma, de olho num “trem” daqueles. Era coisa cômica, mas resolvi ficar só para apreciar a paisagem. Coloquei os óculos de sol pra disfarçar a vermelhidão do dia anterior e pedi mais uma, afinal, como dizem, o lobo perde o pelo, mas não perde o vício.

A tarde deu lugar à noite quente e exuberante. Os fregueses aumentaram, e eu já estava bem alto, e batendo papo com alguns fregueses, quando o garçon me abordou. Ele me entregou um bilhete, me mostrou a mulher que havia mando-o entregar e saiu. Imediatamente eu li, e não acreditei.

“Olá paulista.

Qui tal uma noite quente?

Bj”

Olhei de novo e ela sorria. Pedi mais uma e fui ao seu encontro. Pareceu química pura. Nossos olhos se entrelaçaram de certa forma que, pouco conversamos ali. Radiante, disse a ela que estava num hotel a menos de 50 metros dali e partimos.

Depois da meia-idade, você começa a duvidar das coisas, e até da gente mesmo. Tivemos uma noite espetacular. Ela era carinhosa e cheia de vida. Queria saber como era São Paulo, parecia uma criança quando começa a fazer perguntas. Por volta de 4 da manhã, ela me disse que teria que ir embora. Falei que era perigoso, principalmente naquele horário. Ela me garantiu que iria de táxi e que vivia ali, há muito tempo. Despedimo-nos, trocamos número de celular e ela se foi. Parecia uma rainha andando em direção à porta, se voltando e me mandando um beijo.

Tinha que dormir um pouco, afinal meu voo sairia às 10 da manhã. E já estava em meus planos encontrar o velho “Diabo”.

No entanto, os trabalhos só iriam começar de verdade depois de uma semana. Por volta de oito da manhã ouvi um estrondo. Minha porta estava arrombada. A minha frente cinco homens. Dois deles empunhavam armas. O outro, mais moreno e de boné torto na cabeça me olhava furiosamente.

Quando tentei falar algo.

Foi tarde demais.

 

NÃO DEIXE DE LER OS CAPÍTULOS ANTERIORES:

CAPÍTULO 1: www.jornalabigorna.com.br/page/noticia/conto-terra-selvagem-


CAPÍTULO 2: www.jornalabigorna.com.br/page/noticia/-terra-selvagem-2-capitulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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