Não sei quanto tempo permaneci amarrado numa cadeira. Entre idas e vindas de meus algozes, ou era uma surra, ou o método de tortura quando se põe um pano sobre a face dos indivíduos e vai-se jogando água, até ele não ter mais fôlego.
Nessa parafernália toda, somente o que eu dizia era que não sabia de nada, e realmente não sabia. Eles queriam saber para quem eu trabalhava, dentre outras coisas. Quando estava quase desnutrido, a morena que passou a noite comigo entrou no quarto e mandou que me soltassem, com um ar esnobe dizendo “esse merda não sabe de nada”.
De repente tudo ficou escuro.
Acordei jogado ao lado do lixão da cidade. Permaneci ali por algum tempo. Precisava raciocinar, mas a cabeça não ajudava. Pedi uma ajuda a um motorista de táxi que me deixou ao lado de casa. Creio que dormi um dia inteiro.
Quando abri os olhos fui tateando até o banheiro, onde tomei uma ducha, que há dias não fazia. Parecia que eu estava fedendo cadáver velho. Depois comi um lanche e fiquei absorto em minha cama.
Passavam da 1 da manhã, e eu tentava uma maneira de encaixar todos os acontecimentos. Depois de algum tempo as coisas começaram a clarear. Nada havia sido coincidência. No entanto, resolvi a voltar a dormir. Amanhã seria o dia da caça às bruxas.
Por volta de 7 da manhã já estava desperto em meu escritório. Juntando as peças, as anotações e enviando um e-mail para o “Diabo Loiro”. Em geral ele não demora muito tempo para responder. Enquanto esperava fui lendo os e-mails que estavam na caixa de mensagem, até que algo me surpreendeu.
Num e-mail, o velho Diabo, me dizia: “Caro. Venho logo neste endereço que vou te passar. Você não vai acreditar no que descobri”. – Assinado DL.
Peguei minhas coisas rapidamente e sai como um maluco. Nunca, jamais o Diabo havia dado o endereço dele, e aquilo me surpreendeu.
Corri até a primeira estação de metrô, desci no Jabaquara e, não precisou muito para notar uma casa simples descrita no e-mail, entorno de um marasmo de prédios suntuosos. Conferi o número e saí em correndo.
A porta era de um tom vermelho e desgastada pelo tempo. Notava-se que a residência era de um estilo muito antigo. Apenas as janelas haviam sido trocadas, e um grosso portão colocado. Toquei a campainha, bati palmas, mas nada. Enfim, atravessei a avenida e fui a uma padaria defronte. Pedi um café, e enquanto o atendente me servia, perguntei pelo morador da casa à frente.
O moço com cara de cearense me olhou espantado.
“O senhor conhecia àquele homem? ”
Gaguejei e perguntei-lhe o porquê do “conhecia”.
O rapaz se abaixou e me deu um jornal de 5 dias atrás que estampava a manchete: “Homem é executado com tiro na nuca no Jabaquara”.
As coisas começaram a rodar. Queria ligar para o Celsão, mas algo me dizia que ele estava com alguma treta. Tomei mais dois cafés e voltei para casa. Depois do estupor, enfim, liguei na casa do Celsão. Sua mulher que atendeu. Estava com a voz embargada.
“Alô? ”
“Clara é o Saulo. ”
Ela me cumprimentou como uma pedra de gelo.
“O Celsão está? ”
“Não. ”
“Ah, ok, ele deve estar na delegacia, eu ligo lá pode deixar. ”
“Saulo...?”
“Oi, sim. ”
“O Celso está no cemitério. ”
E desligou.
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