Vomitei.
Aquilo era a coisa mais abominável que em todos os anos como perito jamais havia visto. A minha frente estava o padre crucificado. Com uma cruz pendendo para frente amarrada por finos fios de ferro, sem cabeça e vestido como clérigo.
Tremia muito. Tateie meu bolso em busca do celular, a foto precisava da foto urgente. Após tomar um folego incrível, cheguei perto do que ali se estampava. O pescoço escorria sangue, já que a maior parte do sangue deve ter jorrado durante o momento do corte.
Liguei para a polícia que não demorou a chegar e junto, claro, o inspetor imbecil, que logo foi dizendo para um dos tiras para me tirarem do lugar.
“Desculpe, senhor, aqui é uma cena de crime, deve sair. ”
Podia até perder o amigo , mas não a piada.
“Não diga. Aqui? Um crime. Ah, policial novato, fui perito por 35 anos. Tolo”.
Saí e mandei a foto rapidamente para o jornalista. Contando o que havia ocorrido. Com todos os detalhes. De repente, um rapaz de bicicleta passou como um furacão e levou meu aparelho.
“Filho da puta”- gritei sem adiantar nada. Segurança no Brasil é coisa para “inglês ver”
Foi só o tempo de gritar e a bicicleta sumir. Tateei meu bolso e encontrei o papel que tirara do bolso do padre. Olhei. Era um folheto de uma cidade pouco conhecida do México. Não dei bola, e guardei o papel. Peguei o metrô e logo fui para casa. Precisava ligar para o Drummond.
A chuva repentina fez com que me atrasasse um pouco. Liguei e ele atendeu no primeiro toque, dizendo que já estava quase terminando o texto e enviando para a Redação em regime de urgência. Não queria tomar seu tempo e desliguei, esfregando as mãos ansioso pela notícia especial.
Sentei-me. Agora sentia o sangue voltar ao normal, quando ouvi um barulho de sirene. Olhei pela janela. Era o inspetor. Desci e ele me esperava com as mãos no bolso, desta vez, sem estar sorrindo e foi logo dizendo:
“Olha aqui aposentado. O secretário de segurança pediu sigilo. Portanto, se algo for ventilado na mídia, você se verá comigo”.
“Claro senhor, e a propósito. Eu não serei ouvido na investigação? ”
Ele entrou na viatura descaracterizada, abriu vidro, me mediu de cima a baixo, riu e disse que meu testemunho era desnecessário. E quem era a autoridade era ele, e assim, quem decidiria qualquer coisa seria ele. O motorista ligou a sirene e a viatura saiu cantando pneus.
Não sabia se teria forças para a campana programada, e resolvi ligar para o Drummond, mas desta vez ele não atendeu.
Tomei um banho, desisti da campana e liguei a TV. No jornal local, não havia notícias do crime. Liguei de novo pro Drummond, e mais uma vez ele não atendeu.
A noite foi entrecortada entre sono e sustos, no qual acordava suado. Parecia que o sol na chegaria nunca. Quando era 5 da manhã não suportava mais a cama e me levantei. Preparei um café, coloquei roupas grossas, pois a chuva da noite anterior havia trazido uma onda de frio.
As 6 em ponto, quando a Van descarregava os jornais, ajudei o senhor da banca a abrir os pacotes. Perguntei qual era O Matutino, e ele me olhou mostrando onde estava o malote. Corri e tirei meu canivete. Peguei logo uns exemplares, joguei uma nota de dez e voltei para casa quando a chuva engrossava.
Apressadamente comecei a folhear os jornais em busca da matéria bombástica, que havia passado ao Drummond. Quanto mais procurava, menos eu a localizava. Revirei pagina por pagina, teria que estar, no mínimo, na primeira página.
Desesperado, olhei a página de óbitos, e lá estava a morte do padre. A matéria não era do Drummond e detalhava apenas a versa do inspetor e do IML, dizendo que o sacerdote havia tido uma parada cardíaca, fora achado muito tempo depois, e, por isso, o caixão estaria lacrado.
Fiquei alucinado e saí rumo a casa do Drummond. Cretino desgraçado. Em pouco menos de 40 minutos estava na porta da casa do jornalista. Fiquei loucamente tocando a campainha por vários minutos. Perdi a cabeça, pulei o muro baixo, e me ajeitei para chutar a janela do quarto, mas não foi preciso, já que ela estava entreaberta. Entrei, as luzes estavam apagadas. Fui até o lugar em que ele usava como escritório, e seu corpo estava inerte à frente do computador. A matéria estava feita, e faltava ele teclar o botão enviar. Pois bem, quando fui apertar a tecla senti uma forte pancada na nuca.













