Estudei métodos de conhecer as entranhas desta Seita secular. Enquanto tomava meu café todos os dias na padaria do Zé ficava escarafunchando um método de me aproximar de alguém que tenha feito parte da Seita.
Lembrei-me de duas pessoas, que, com certeza, poderiam ter informações importantes sobre a Seita daquele gordo inescrupuloso.
Em meus tempos de faculdade de direito conheci um aluno muito dedicado. Ele era bem novo, é só pensava nos estudos. Um dia ele me disse que seria ministro do STF.
Remoí a ideia e a tentação de procurá-lo. Sabia que ele morava no Morumbi, mas passava a maior parte do tempo nos Estados Unidos.
Troquei de roupa e fui à procura do ministro aposentado. Como estava sem carro, tive que suportar o transporte público da maior cidade da América Latina, que é um verdadeiro caos. Cheguei à porta do ministro e parecia que tinha viajado 24 horas ininterruptas. Toquei a campainha e notei que não havia seguranças. Pelo interfone a empregada me disse que ele só partiria para o exterior amanhã. Me identifiquei é só fui atendido porque passei informações da época de faculdade. Quando o enorme portão se abriu entrei num palácio que mais parecia uma obra de Saddan Hussein, tamanho e estilo de quem teve tudo na vida. Paredes adornadas em mármore alemão, peças raríssimas e mobílias de primeiro mundo, tudo em madeira maciça. Só os balaústres que adornavam a sala de visitas deveria custar o que ganhei na vida inteira de salário. Me senti mais pobre do que já era.
Demorou um pouco para ele aparecer, e percebi que ele mancava. No começo não me reconheceu. Me cumprimentou, pediu chá e pediu que me sentasse. Expliquei a ele quem era eu, e, aos poucos, ele foi se lembrando, até que finalmente disse que nunca mais encontrou os colegas de faculdade.
Permaneci no local, por pouco mais de 3 horas. Rimos e relembramos o passado, apesar de tudo foi uma tarde agradável.
Por fim ele me questionou, mas com muita educação.
"Desculpe-me meu caro, mas vejo que você não veio aqui somente para me visitar "
Sem jeito expliquei a ele tudo, desde o primeiro assassinato que estava investigando.
Ele se levantou pegou um pedaço de papel e anotou um endereço. No outro pedaço escreveu uma carta, advertindo a mim que não a abrisse em hipótese alguma.
"Quando você achar este homem, traga-o aqui. Daí sim você terá muito mais do que quer"
Nos despedimos, já era tarde e escurecia. Fui ao bar do Português, que como sempre não me saudou e fiquei ali até quase 1 da manhã.
Desci pelo jardim da Catedral que estranhamente estava às escuras. Tudo apagado. Achei estranho, afinal a iluminação ali, pelo menos era impecável. Tinha bebido um pouco demais, e, de repente, tropecei em algo e cai. Olhei para trás e vi a cabeça e muito sangue já coagulado. Merda.
Cheguei mais perto e tinha um bilhete na boca do que parecia ser um travesti. Retirei-o buscando algum facho de luz para poder ler.
Chega de brincadeiras. Afaste se imbecil ou muita gente que você ama vai morrer!
No mesmo momento lembrei-me de minha filha, que era advogada no interior. Liguei em seu celular, mas ela não atendeu. O pavor tomou conta de mim.
Me recompus e virei-me para pegar a cabeça de um pobre coitado que eu nem imaginava quem fosse. Entretanto, ao olhar para o local onde estava a cabeça, o que vi foi um homem de túnica marrom e capuz que lhe cobria inteiramente a cabeça, com mais de dois metros de altura e caminhava levando embora a cabeça que chacoalhava conforme seus pesados passos.
Entre minha filha e uma cabeça, sai correndo para casa, precisava localizá-la, ela poderia estar correndo risco de vida.
***
Somente de manhã consegui falar com ela e lhe expliquei tudo. Ela riu e ainda tirou sarro, falando que sabia que tinha um pai louco, mas nem tanto.
Depois do telefonema olhei o bilhete me dado pelo ministro, o qual apontava o endereço de – sei lá quem – no Bairro Vila Jussara. Era final de mês, estava quase sem dinheiro, mas assim mesmo resolvi ir de táxi, seria mais rápido.
Quando desci do táxi no endereço apontado, deparei-me com uma casa modesta, porém bem cuidada. Não foi nem preciso me preocupar em chamar o dono. Ele estava a porta fumando. Tinha um aspecto amarelado, com barba por fazer e olheiras de quem não dormia há dias. Quando me viu, jogou o cigarro e disse:
“Dê-me a carta e entre. ”













