
Não me lembro ao certo o dia em que comecei como coroinha na Igreja de São Benedito. Era o ano de 1987. O sacristão era o Wanderlei e, não havia tantos coroinhas como existem hoje. Lembro-me de entrar na sacristia e pegar uma túnica. Estávamos em torno de 6 ou 7, num domingo à noite.
De repente, entra pela porta lateral um homem de cabelos grisalhos, todos de preto, e um ar um pouco sisudo. Era padre Paulo. Engraçado, como ele entrava. Não falava com ninguém nos primeiros minutos, depois ia até os ministros da Eucaristia, cumprimentava a todos, e, em seguida, vinha até nós, mexendo em nossos cabelos e sorrindo.
Ato contínuo colocava sua batina, sua estola e esperava alguns segundos para o início da missa, que, em geral, estava sempre lotada. Padre Paulo não tinha só amigos, tinha fãs, por sua conduta impoluta de um homem que lutou a 2ª Guerra Mundial, e, posteriormente, começou a sua vida monástica em Hardehausen (que significa Abadia Cisterciense), com o nome de Frei Bernardo.
Deixou a Alemanha para vir a se tornar um monge cisterciense, em Itatinga, onde foi ordenado padre pelo Bispo de Botucatu Dom Henrique Golland Trindade, em 1º de dezembro de 1957. (1*)
Lembro-me, como se fosse hoje, que, a cada dia, mais e mais estava na Igreja. Aos poucos fui conhecendo pessoalmente Padre Paulo. Foram alguns anos como coroinha, até que o sacristão da época, deixou vago seu lugar, e, onde fui convidado pelo próprio Padre Paulo, em sua casa, para assumir tal tarefa. Era um domingo à noite. Havíamos comido a deliciosa pizza que o padre alemão fazia. Dentre muitos atributos, o nobre padre era um grande cozinheiro.
Neste momento de minha vida, tive contato com diversos padres. Conheci a Igreja por dentro, aprendi a admirar um europeu, o qual jamais imaginava um dia conhecer. No dia-a-dia, Padre Paulo falava muito de sua mãe, de sua vida na Alemanha, da vida na época de Hitler e do sofrimento de uma Guerra. Embora muito fechado, Padre Paulo se abria com aqueles que faziam parte de sua vida.
Austero e de uma disciplina diferenciada, padre Paulo formou o caráter de muitos jovens, os quais passaram pela paróquia de São Benedito, e com ele muito aprenderam.
Ficamos amigos um grande tempo, o que não impedia, às vezes, que não tivéssemos problemas de ordem pessoal. Padre Paulo era duro, e, muitas vezes, não tolerava ser questionado. Enfim, era seu jeito humano. Conheci o padre e o ser-humano. Dono de uma sapiência fora dos moldes – estudioso e liturgicamente imbatível, Paulo Goecke foi uma pessoa especial. Foi um padre incomum. Uma figura que mudou a relação do catolicismo com os fiéis. Um Padre que trouxe muito para Avaré, ajudou muito a cidade. Oxalá, todos tivessem a mesma abnegação do alemão. Fiquei alguns anos como sacristão. Depois decidi seguir a vida no Seminário, mas, essa não era minha vocação.
Quando voltei, continuei frequentando São Benedito. Lembro-me do assalto que o abalou profundamente, onde ele ficou refém de bandidos por horas. Ele foi tomado pelos bandidos quando guardava o caro em sua garagem. Após o roubo, os bandidos fugiram e Padre Paulo se socorreu até a casa ao lado, onde morava o inominável João Durço, o qual lhe deu todo o apoio possível na hora do desespero. Depois do roubo e das agressões sofridas, Padre Paulo ficou muito tempo afastado da Igreja, e Padre Jacob Augustin foi designado a ajudar-lhe.
Sua última missa foi dia 24, a famosa Missa do Galo em 1991. Depois da celebração, padre Paulo, que já não morava na Casa Paroquial, mas sim numa casa, pelo bairro Água Branca participou com poucas pessoas de uma ceia natalina. Sua última ceia. As visitas que fazia a ele eram tristes, pois a cada dia via sua saúde se esvaindo.
Sinto que o assalto mexeu muito com seu emocional. A partir disto, sua saúde, gradativamente foi sendo exaurida. Um câncer avassalador tomou conta do padre que mudou o rumo do catolicismo avareense.
Quando o abracei, antes de tomar o carro e ir para o aeroporto, e de lá, tomando rumo para a Alemanha, depois de uma operação não bem-sucedida em São Paulo, sabia que Paulo Goecke estava dando seu adeus definitivo. Voltava de onde havia partido. Tinha completado seu ciclo, e, creio que dentro de sua alma, sentia que tinha que retornar a suas origens. Todos queríamos ele ao nosso lado, mas ele preferiu terminar sua jornada na sua cidade natal em Menden, onde morreu em 05 de março de 1992. Não houve velório na Igreja São Benedito. Colocaram uma foto de Padre Paulo acima do altar, e, uma vela. Todos passavam ali para se despedir em espírito do Padre que um dia fora um dos maiores de Avaré.
* Por André Guazzelli - jornalista
(1*JÚNIOR,Gesiel;EmLouvoraSãoBenedito:Grill,2017,pág.66/FotoGesilJr))













