A ruidosa revelação do pedido de dinheiro feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro presta dois serviços essenciais ao País: primeiro, como já afirmamos neste espaço, expõe a baixa estatura moral e política do primogênito de Jair Bolsonaro para ser o principal candidato da direita à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; segundo, serve de advertência definitiva para o campo conservador e insta-o a se afastar da usina de escândalos que é, essencialmente, o bolsonarismo. Já passou da hora de romper a subordinação aos métodos do clã Bolsonaro.
Há anos, parte da direita trata o bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável. Alega-se que Bolsonaro conserva votos, mobiliza militância e encarna a rejeição ao lulopetismo. Isso pode explicar a conveniência de curto prazo de políticos que orbitam o ex-presidente, mas não justifica a abdicação moral, programática e institucional de um campo político inteiro.
Quem se prende a Jair Bolsonaro e seus filhos não recebe apenas votos. Recebe também vícios, métodos e passivos. Recebe também a confusão entre público e privado, o culto familiar, a hostilidade às instituições, o desprezo pela liturgia democrática e a incapacidade de distinguir causa pública de negócio particular. O bolsonarismo é tóxico por natureza. Sua toxicidade é o seu próprio modo de existir.
A direita democrática tem diante de si uma oportunidade preciosa, que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas ideias envelhecidas sem se submeter a Bolsonaro. O governo lulopetista oferece razões de sobra para ser derrotado. É anacrônico, estatizante, aparelhado e incapaz de apresentar uma agenda moderna de crescimento econômico, responsabilidade fiscal e eficiência administrativa. Mas a malaise lulopetista não absolve a direita de seus pecados nem autoriza a entrega do campo conservador a uma família incapaz de atravessar uma semana sem produzir um novo escândalo.
Convém à direita decidir se pretende ser força política adulta ou torcida organizada do ressentimento. Se deseja governar o País, terá de oferecer mais do que antipetismo: compromisso com a Constituição, respeito às instituições, responsabilidade fiscal, defesa da economia de mercado e padrões mínimos de decência. Nada disso floresce à sombra de Jair Bolsonaro e de seu sucessor imediato, Flávio Bolsonaro.
O bolsonarismo tenta vender a fantasia de que qualquer crítica ao clã favorece Lula. É chantagem. O que favorece Lula é a incapacidade da direita de se desintoxicar do bolsonarismo. Enquanto o campo conservador permanecer preso a personagens marcados por golpismo, escândalos e negócios mal explicados, o petismo explorará o medo de alternativa ainda pior. Bolsonaro é, nesse sentido, um seguro de vida para Lula.
A ruína política de Bolsonaro poderia ter sido o ponto de partida para a reconstrução da direita, abrindo espaço para lideranças comprometidas com reformas e moderação. Em vez disso, muitos preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o patrimônio eleitoral do ex-presidente fosse transmissível por sangue. O resultado é Flávio Bolsonaro – que não tem estatura nem para ser poste do pai golpista, que dirá presidente da República.
Não há futuro respeitável enquanto a direita tratar a família Bolsonaro como destino. O conservadorismo democrático não precisa de herdeiros ungidos por sobrenome. Precisa de partidos sérios, lideranças preparadas, programa consistente e coragem para romper com aquilo que o degrada. A ruptura não será indolor, mas pior é seguir arrastando o peso morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais rebaixado na vida pública. Deve-se perguntar quantos escândalos mais serão necessários para reconhecer essa verdade.
Eis a chance definitiva da direita: assumir seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e comprometida com a ordem constitucional, ou continuar servindo de biombo para uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Se quiser voltar a merecer a confiança dos brasileiros, precisa romper com o bolsonarismo. Fora disso é tornar-se cúmplice de um desastre.(Do Estado de SP)













