Já tem lugar marcado a próxima batalha na guerra entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro. As facções estão estocando homens, armas e munições para disputar os centros de processamento de drogas no interior de Capitán Bado, pequena cidade paraguaia separada por apenas uma rua de Coronel Sapucaia, município agrícola no oeste do Mato Grosso do Sul.
A região é um ponto minúsculo no mapa da América do Sul. Para se ter uma ideia, as duas cidades somam apenas 30 mil moradores. Mas a área é estratégica no comércio de drogas do continente. Em quatro fazendas, no interior do Paraguai, funcionam centros de processamento de cocaína, trazida em grandes quantidades a bordo de pequenos aviões da Bolívia e da Colômbia. A maconha é buscada nas plantações paraguaias.
Nesta região, as drogas são embaladas em pacotes de um quilo e, depois, levadas às bocas de fumo. O transporte é feito por ligações terrestres e aéreas que a região tem com o Brasil, o segundo maior mercado consumidor de drogas do mundo. Por terra, a droga é conduzida por estradas asfaltadas e desprotegidas que levam até grandes cidades brasileiras. Os traficantes aproveitam o intenso trânsito de carretas carregando grãos para camuflar o transporte da carga ilícita.
Pelo ar, Capitán Bado fica a poucas horas de voo do interior paulista, importante polo consumidor de drogas. Os traficantes usam aviões pequenos conduzidos por pilotos experientes. A maioria deles trabalhou para os garimpeiros expulsos nos anos 1990 das terras dos índios Yanomanis, na fronteira de Roraima com a Venezuela.
O homem que montou toda a estrutura que tornou Bado um lugar estratégico se chama Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, traficante da facção carioca. Em 1999, ele chegou à região fugindo da Justiça brasileira. Foi recebido e protegido pelo João Morel, dono de uma bem-estruturada quadrilha na fronteira.
Um relatório da Polícia Federal (PF) descreveu que Beira-Mar, com apenas um celular, se articulou com os seus aliados cariocas e passou a enviar drogas. Também conseguiu uma aliança com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele mandava para a Colômbia remédios, armas e munições, e as Farc pagavam com cocaína. Em menos de um ano, ele havia montado o primeiro centro de processamento de drogas.
Beira-Mar organizou um exército com bandidos do Rio de Janeiro. Em 2001, ele mandou matar Morel e seus dois filhos, iniciando uma guerra contra as quadrilhas regionais. O próximo da lista era Carlos Arias Cabral, Líder Cabral, importante traficante de maconha para o Brasil.
Pelo menos 20 homens de Beira-Mar invadiram a casa de Cabral, que conseguiu fugir pulando um muro. Mas a sua mulher e um filho de três anos foram mortos. Líder Cabral está preso.
A guerra contra os bandos locais foi cruel e fulminante. Em 2002, Beira-Mar foi preso no interior da Colômbia pelo Exército local. Ele mandou, então, para Bado, um dos seus homens de confiança, o traficante Leomar Oliveira Barbosa, que acabou sendo preso.
Beira-Mar sai de cena no momento em que a região começa a se estruturar como centro de processamento de drogas e as quadrilhas regionais estão aturdidas pelos cariocas. É neste momento que os traficantes paulistas entram em cena. No início, de maneira tímida, mas, depois, mandam para a região Carlos Antônio Caballero, conhecido como Embaixador, que se alia ao traficante local Jarvis Chimenes Pavão. Os dois consolidam o poder da facção paulista na região e são presos em 2009.
Este é o cenário onde cada prisão ou morte do chefe cria uma nova oportunidade para o surgimento de um novo líder. É dentro desta lógica que a facção do Rio tentou retomar o controle da região.
Estive há duas semanas em Capitán Bado e na região conversando com policiais, religiosos e outras fontes. As cidades novamente visitadas, Bado e Sapucaia, fazem parte de um livro que escrevi, em 2003, chamado "País Bandido". Fui saber o que tinha mudado de lá para cá. O que aconteceu é que as quadrilhas regionais estão voltando ao cenário. E estão usando os nomes das duas grandes facções como se fossem uma espécie de franquia para sobreviverem. Não porque tenham medo dos paulistas e dos cariocas. Afinal, os locais têm armas, munição, dinheiro e muitos homens para lutar. A razão é: PCC e o CV controlam a distribuição dos dois maiores centros consumidores de drogas do país, o eixo Rio-São Paulo.
Aliás, foi por ter o mercado consumidor carioca ao alcance de um celular que Beira-Mar montou sua base em Bado. O atual contexto de fortalecimento dos chefes locais do tráfico na região foi entendido e aproveitado por pessoas como o traficante Jorge Rafaat, que fornecia drogas no atacado às facções. Houve um desentendimento comercial, e ele foi morto de maneira cinematográfica, em junho de 2016, em Juan Pedro Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã, município no oeste do Mato Grosso do Sul.
A polícia apura se é verdade que Rafaat estaria por trás da retomada dos centros de processamento de drogas de Bado, usando a marca da facção do Rio na guerra contra o grupo paulista. Fui alertado que o fortalecimento dos chefes de quadrilhas regionais não pode ser generalizado para toda fronteira do Brasil com o Paraguai. Ele é exclusivo da região de Bado.
Na opinião de agentes da inteligência da Polícia Federal, a guerra pela retomada dos centros de processamento de drogas deverá iniciar assim que finalizar as matanças nos presídios, onde os dois grandes bandos, aliados com facções regionais, empilham cadáveres. As lutas nos presídios têm como pano de fundo a caminhada das facções rumo aos mercados produtores de drogas, como a Colômbia. É dentro desta lógica que se insere a disputa em Bado, que se tornou um entreposto dentro da logística do abastecimento do mercado de drogas.
A guerra não será urbana, mas rural, longe dos holofotes da mídia. E não menos cruel do que a acontece nos presídios. A guerra só não ocorrerá se houver um acordo entre o grupo paulista e o carioca. E é possível que se entendam, já que mantêm um inimigo comum: os chefes regionais de Capitán Bado.
*Carlos Wagner, 66 anos, é repórter e autor de 17 livros, entre eles País Bandido













