Por Assis Châteaubriant - O crime organizado já tem diploma e anel de doutor. Os advogados não são úteis ao crime organizado apenas para defender seus integrantes, mas também porque suas prerrogativas profissionais podem ser usadas para facilitar a comunicação dos líderes presos.
Para visitar um cliente na cadeia, o advogado não passa por revista, como ocorre com familiares dos presos. Suas idas e vindas também não estão restritas aos horários de visitas. Esses predicados ganharam importância maior nos últimos anos, com as tentativas das autoridades penitenciárias de evitar que os líderes das facções tivessem acesso a celulares.
Os serviços de pombo-correio dos advogados viraram o principal meio de comunicação das lideranças com outros presos e seus cúmplices fora da cadeia. Antes de ser transferido para Presidente Bernardes, onde as regras para ver os detentos são mais rígidas que em outros presídios, Beira-Mar chegou a receber num único mês a visita de 24 advogados.
A prisão dos bacharéis de Avaré, dentre outras cidades, mostra a ampliação de um problema que já eclodiu há anos em São Paulo. Eles são muito bem remunerados, no entanto, escravos do sistema da facção PCC.
Como seres humanos, os advogados são tão corruptíveis quanto os representantes de qualquer outra categoria profissional. Como em todas as profissões, os frutos podres são minoria.
Contudo a descoberta desses casos - choca - porque a sociedade espera que, como representantes do processo da Justiça, os advogados tenham pelo menos um comportamento impecável.
A cooptação de alguns deles pelo crime arranha a reputação de uma classe zelosa, embora o número de envolvidos em crimes seja pequeno, mas basta um caso para manchar a imagem de toda uma categoria.
Os advogados de Avaré, à “olhos nus” – demonstravam sinais de riqueza – preponderantes num curto espaço de tempo. Carros de luxo, viagens suntuosas, enfim um comportamento e uma vida incompatíveis com a labuta diária de uma classe que está esgarçada de profissionais.
Mesmo diante destes casos, a OAB não admite falar em reduzir os privilégios que facilitam o acesso dos advogados às prisões. Apesar de o advogado estar perdendo o respeito que tinha da sociedade, ele não deveria ser tratado como qualquer um; mas está se mostrando que não é qualquer um, mas sim bandidos a serviço do crime.
No mundo inteiro, advogados e juízes se envolvem com o crime organizado. Mas em países desenvolvidos eles são submetidos à fiscalização mais rigorosa para evitar que isso aconteça. Nos Estados Unidos e na Itália, além de passar por detectores de metais, os doutores são revistados manualmente, além de serem obrigados a abrir suas pastas, bem como todos os papéis, inclusive os que estiverem nos bolsos, são numerados. Eles têm de sair com a mesma quantidade de papéis com que entraram.
Enquanto a sociedade clama por mais justiça e contra a corrupção, uma classe de prestigio, está sendo desprestigiada pelos seus próprios integrantes, pois ser bandido a serviço do crime, dá mais dinheiro do que atender pessoas com baixo potencial financeiro.
Isso é Brasil”
Chatô é escritor.
Obs: Artigo elaborado com pesquisas junto a revista Época.













