O general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), fez uma apresentação de 20 minutos no quartel-general do Exército para tratar das ameaças ao Brasil. Listou atores estatais e não estatais, estes últimos enfeixados em três blocos, representados por bandos organizados, organizações criminosas e ameaças cibernéticas.
Tratava-se de uma oportunidade rara: o chefe da inteligência militar de um país fazer uma exposição sobre os ganhos financeiros e as razões ideológicas que motivam cada tipo de ameaça ao Brasil, um país que está sob ataque de grupos criminosos, alguns dos quais exercem “controle territorial limitado, desafiando o estado e gerando instabilidade”.
O oficial tratou das inúmeras organizações criminosas que se articulam no País; não apenas do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC), que têm um grande portfólio de ilícitos. E concluiu: “Não há limite para a cadeia criminal”, disse. Quem assistiu à fala do general teve a certeza de que as ações do crime transnacional ocupam um papel central nas preocupações do CIE.
“O que nós (militares) temos que entender nessa dinâmica e ameaça – e a gente não pode cair na armadilha da securitização; eu estou deixando aqui bem claro aos senhores a posição da inteligência –, é que existem organizações criminosas com alto poder de renda e lucratividade acima da média", afirmou o chefe da inteligência militar.
O Brasil, no relato do general, está cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia e pelo maior produtor de maconha, o Paraguai. Para que toda essa droga chegue à Europa e Ásia, o caminho mais fácil é passar pelo País “Portanto, o Brasil é um país de entreposto. Nós estamos exatamente dentro do fluxo da cadeia logística”, disse o general.
O PCC, que domina a Rota Caipira da droga, manteria contatos com cinco grupos criminosos que atuam no Peru e na Bolívia e com o venezuelano Tren de Aragua, com atuação em Roraima, enquanto o CV manteria relações com um cartel peruano e com dois dos Grupos Armados Organizados Residuais (GAOR), formados por dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), explorando a Rota do Solimões para exportar cocaína para a Europa, Ásia, África e Oceania.
Pelos cálculos do CIE só o mercado interno brasileiro movimenta cerca de 8 mil toneladas por ano de maconha e skunk e em torno de 170 a 200 toneladas de cocaína, o que geraria uma receita bruta de R$ 30 bilhões. A inteligência estima que, no mínimo, 250 toneladas de cocaína saem por ano pelo Brasil. “Estamos falando numa receita bruta de mais ou menos 50 bilhões de reais ao ano”, afirmou o general.
Para o general, trata-se de um negócio que ameaça, “de certa forma, a soberania do Brasil de maneira limitada e, portanto, ameaça uma parte da Defesa”. “Mas isso não quer dizer que nós somos os elementos principais que têm de combater esses grupos.”
Na área da Cabeça do Cachorro, na Amazônia, os três principais grupos colombianos em articulação com o CV não atuam apenas no narcotráfico, mas também se dedicam à mineração ilegal e a extorsões em território nacional. “Isso é o que ameaça a nossa soberania.”
Ameaças cibernéticas
Quase no término de sua apresentação, o general abordou as ameaças cibernéticas e expôs um número alarmante: em 2025, os dados do CIE registram mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão dentro do Brasil. “E eu posso assegurar aos senhores que muitas delas foram bem sucedidas de certa forma pela fragilidade das instituições, inclusive públicas”, contou.
Nesse campo, as ameaças são híbridas - praticadas por atores estatais e não estatais, por razões ideológicas ou financeiras. “Quem está por trás de um grupo hacker? Nós sabemos, tem vários APPs e sabemos que os APPs, essas ameaças tecnológicas, têm por trás atores estatais que estão financiando isso.” O general, que é um operador psicológico, concluiu tratando da dimensão cognitiva ou informacional das ameaças.
Para o general, o sistema de inteligência do Exército foi montado em cima de fontes humanas, mas desde 2010 uma enxurrada de fontes tecnológicas mudou o trabalho do órgão, impondo o desafio da capacitação. “Tropa como sensor é também importante. Mas as fontes tecnológicas nos impõem, por exemplo, gente que é especializada em gerar inteligência.”, concluiu o general, pouco antes de outro general – Jacy Barbosa Júnior, comandante da Defesa Cibernética – iniciar sua apresentação.
“Você demora em torno de cinco anos para formar um operador cibernético e gasta em torno de R$ 300 mil em capacitação”, contou o general. As ameaças cibernéticas não estão somente no teatro de operações das guerras, mas também na Zonas de defesa, na zona de interior, nos territórios dos países, independentemente da distância do conflito. O general comparou o ataque à infraestrutura crítica da Polônia ao recente ataque sofrido pela empresa Dígitro Tecnologia.
De acordo com informações da Defesa Cibernética do País, em 8 de abril de 2026 foi registrado uma ação que atingiu a cadeia de suprimentos da Dígitro. O resultado foi o vazamento de cerca de 3,39 TB de dados, incluindo bancos de dados, código-fonte e arquivos internos de soluções de inteligência e interceptação legal. A Dígitro é responsável pelo Sistema Guardião, usado por forças policiais para interceptações telefônicas. “Nove de cada dez empresas de segurança do Brasil trabalham com sistemas deles, que tiveram 3 TB de dados desfiltrados”, afirmou o general.
As informações extraídas da Dígitro foram disponibilizadas para download na plataforma DDoSecrets. “A motivação dele (desse grupo) não é financeira, é ideológica. Ele acha que ele é o sucessor do wikileaks. Então, acontece somente o setor militar? Não, senhores, nós vemos isso todo dia, em todo lugar”, disse o general.
Barbosa Júnior relatou ainda outro ataque: em 24 de junho de 2025, ele provocou a “negação de serviço em praticamente todo o governo federal”. “Domínio gov.br e aí cascateou para PF, para ABIN, para o INSS, ConnectSUS. Então, senhores, isso é o dia a dia. O mundo muda, o mundo está mudando e é isso que a gente tem de ver. As ameaças que nós estamos olhando: espionagem, desinformação, ataque a posicionamento de infraestruturas críticas são atividades de ameaças ao Estado.”
O general afirmou que nesse campo atores não estatais representados por organizações criminosas internacionais usam ransomwares, um tipo de software malicioso, para invadir sistemas e criptografá-los para pedir um resgate. “E aí você tem dois problemas: se você paga, você se torna um bom pagador. Você vai ser atacado de novo. Se você não paga, muitas vezes você pode ter um hospital que quando tem o sistema dele hackeado, morre gente. Então, isso está cada vez mais barato de se contratar.”
Para o general, essas ações são ameaças à soberania de um Estado, pois ameaçam serviços essenciais e infraestruturas críticas, inclusive, para as forças armadas. O general concluiu tratando do desafio que a Inteligência Artificial acrescenta à Defesa Cibernética. “Na prática, se você não tiver o tratamento dos dados dentro de um local onde você consiga controlar, a informação vai fluir por onde você não pode protegê-la. A grande preocupação da cibernética com a IA não é com a ferramenta em si, mas é a informação que vai ser tratada por ela.”
Análise por Marcelo Godoy
Repórter especial do Estadão e escritor. É autor do livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015). É jornalista formado pela Casper Líbero.













