O cadáver estava inerte.
Eu tinha 17 anos quando um homem me viu na rua. Maltrapilho, sem ter o que comer, e revirando lixo, para achar algo que me desse um alívio na fome estrondosa.
Parou o carro. Fez algumas perguntas e depois me colocou no carro levando-me até um quarto sujo e malcheiroso. Ali passei mais de 30 anos minha vida. Apesar de ter comida, uma cama, eu era a escória do mundo. Tudo aquilo que ninguém quer ver, ou sequer nota que existe.
Minha vida, se é que se pode considerar isso uma vida, era enterrar os mortos. Entregar os mortos aos mortos. Eu adorava o epitáfio em uma lápide num dos túmulos que dizia, “você está o que nós fomos, e serás o que somos”. Era a mensagem que uma pessoa abastada e rica, não toleraria ler.
Todos os dias, alguém deixava este planeta imundo e desorientado. Apesar de o local em que eu trabalhava ter ares lúgubres, só eram enterradas pessoas que tinham condições financeiras da mais alta patente; mas eu via que a morte era igual para todos.
Olhava àqueles monumentos enormes, onde ficavam ossos, podridão. O nada. O ser que se tornara o nada. Meu trabalho era apenas ficar no final do velório, fechar o caixão e colocar o cadáver no local elegante de sua casta familiar.
Quando não tinha nada a fazer, saia pelas ruas. Meu salário era diminuto. Não tinha família, ou amigos, afinal, quem quer um amigo coveiro? A noite eu ficava a observar os túmulos. O vazio dentro de adornos fúnebres que abrigavam cadáveres que um dia tiveram todo o prazer do mundo, e, hoje, não são mais nada, além de ossos e pó. Ali era o fim da linha. Todo o dinheiro, luxuria e poder acabava naquele local, onde, depois de muito tempo, nem os próprios familiares faziam questão de estar mais lá.
Estava um dia tosco. O outono derrubara todas as folhas que a primavera havia arborizado. O vento estava gelado e ao mesmo tempo cálido. No cemitério, não há tempo. Quando se chega ali, tudo já se tornou abstrato.
O féretro estava reservado somente a família. Um empresário muito rico morrera quando estava em seu formoso iate, à beira-mar. Agora estava num caixão lustroso e extremamente caro. Suas mãos dobradas sobre o peito de um terno de linho exuberante exaltava sua magnitude até na morte, todavia, o mais caro terno, apodreceria junto ao defunto.
O padre terminou as orações, e os familiares foram saindo, sem ao menos ter fechado o caixão. Todos andavam, conversavam e, mais à frente não se notava mais sinais de tristeza. Alguns já sorriam e riam.
Cheguei perto do defunto. Agachei-me ao lado do caixão. Olhei-o densamente. Era um homem de meia-idade, contudo notava-se que havia tido uma vida farta. Seus dedos já estavam secos. A pele logo se afrouxaria. Ao lado de seu ouvido segredei algo. Um sussurro quente dizendo algo que eu não queria entender ... num hálito abrasador.
*Por André Guazzelli.













