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CONTO: " TERRA SELVAGEM"

Por Jornal A Bigorna 30/04/2016 13:49:42 2362
CONTO:

Estava frio. O sol escondido dava uma aura ainda mais permeável para que o ambiente ficasse mais taciturno. Há poucos minutos havia saído de casa, e perambulava pela cidade até chegar, como de costume ao centro.

O vento aumentava, à medida que ia caindo à temperatura. Estava ainda sob efeito do álcool da hora do almoço, quando deixei de almoçar para escancarar às magoas da vida num boteco, onde não conhecia ninguém.

Melhor assim. Havia parado de beber há mais de 20 anos, contudo, naquele dia, não sei o que me deu, e a recaída foi cruel e ao mesmo tempo um alívio. O torpor da vida deixava máculas que, muitas vezes, temos de esquecer. Mas como se esquecer, se nossa memória vexatória e incontrolável, nos trás à tona cenas do que habitamos dezenas de anos atrás.

Contornei a praça, sentido a parte suntuosa de uma grande torre da catedral. Ao mesmo tempo em que procurava um banco para descansar as pernas, sentia uma enorme vontade de sair vagamente do mundo sem rumo.

Fechei o sobretudo até o pescoço, e o chapéu preto atolado na cabeça para que o vento, a vontade da mãe-natureza, que é impossível de controlar, não me tirasse da cabeça. Pouco a pouco fui ziguezagueando, daqui pra lá, de lá pra cá.

O comércio, aos poucos, baixavam as portas. Era um dia atípico e a luz do sol se extirpava de uma maneira voluptuosa, de modo, que, não havia notado naquele inverno atípico.

Já não contava mais a idade. Depois de um tempo, você começa a contar os invernos que se sobrevive. Na minha idade, passar por um terrível inverno, sem uma pneumonia, era uma vitória. Depois de me aposentar, dediquei-me à esposa e aos curiós, mas que o tempo, se encarregara de levá-los de mim.

Entre vielas e ruas, notava que havia me afastado um pouco da catedral, onde a missa iria começar dali a pouco. Mas desisti da missa, quando vi, ainda teimosamente aberto um pequeno bar numa das alamedas.

Notei alguns nordestinos já bastante embriagados, que riam alto, e uma mulher que falava ainda mais alto, na vontade de se impor à roda de homens que ali se fixava.

Entrei, pedi licença sem ser notado. Pedi um trago, mas embalei e, por ali fiquei algum tempo, no qual não me recordo. Bebia compulsivamente, como antes, quando ainda era perito criminal, e deixava o expediente fedendo. Na maioria das vezes carne humana, ou visões de mulheres estraçalhadas e estupradas. Pais mortos pelos próprios filhos que choravam ao lado dos corpos, mas que depois as investigações acabavam prendendo-os. Não entendia o ser-humano. Como matar e chorar ao lado do corpo de uma mulher que havia lhe dado à vida e carinho. Neste interim, perdi a fé em Deus, e não acreditava mais no homem. Um ser vil e ofegante pelo dinheiro.

Peguei nojo do ser-humano, e me atolei na bebida. Não aceitava ver tanta barbárie, num mundo que todos postavam mensagens lindas nas redes sociais de alegria e esperança. Quanta descarga de merda, num mundo que flutuava pelos escombros do mal, mas tinha uma falsa imagem de que tudo era acaso da vida, que o ser-humano era feliz, que as tragédias eram apenas ocasionais, mas o mundo era bom. Quanta mentira.

Já estava um tanto quanto embriagado, quando olhei pela porta e vi um cadeirante passar. Ele tinha uma cadeira-de-roda automática, e deslizava rapidamente sentido à igreja.

 A noite dominava. Olhei o relógio na parede do estabelecimento, que marcava dez da noite. Estava tão absorto em mim mesmo, que, sequer notara que era o último freguês de um homem alto e careca, com bigodes rudes, mas parecido com um português, e que não se importava de ficar me atendendo até àquela hora. Num canto, ele olhava à TV, e só se mexia quando pedia mais um trago. Depois voltava ao seu lugar, sem nada dizer. Permanecia, assim, calado.

Depois de mais uma bebida, lembrei-me do pobre cadeirante, àquela hora num lugar que, aos poucos ficava perigoso. Ali depois de certo horário, o futuro era incerto. Já atendera inúmeros homicídios naquele local. Massacres, estupros, roubos e espancamentos, enfim, um pouco de tudo.

Paguei a conta, o homem alto de bigode baixou as portas sem dizer uma palavra e desci à procura do homem de cadeiras-de-roda. Não sei por que, mas estava preocupado com ele. O quê um pobre deficiente faria num local daqueles, ermo e perigoso. Meu instinto e a embriaguez me cegaram e desci rapidamente, como nos velhos tempos.

Não foi preciso muitas quadras, e logo o avistei. Ao seu lado estava uma garota alta, esguia de blusas vermelhas e batom não menos avermelhado num lábio carnudo. Estavam parados. Ela de frente com ele. Parecia feliz e ria, assim como o homem que não andava. Retrocedi alguns passos. Ali era ponto de mulheres de programa, e logo notei que elas estavam tomando seus lugares.

Sorrateiramente, encontrei um lugar privilegiado, onde o casal não poderia me notar, e por ali permaneci, não sei quantas horas. Em determinado momento, já sem movimento na viela, ela subiu por cima dele, e vi espasmos entre os dois, que não durou muito. Logo notei que ela havia parado -  os olhos arregalados.

O homem, em poucos segundos, jogou-a de lado, e pude ver um fio tão fino de um punhal em suas mãos. Ela tombou ali mesmo. O cadeirante saiu, como se volitasse, virou à esquerda, e sumiu quando tentei sair correndo atrás dele, mas o álcool havia me tomado por completo, e não tinha chances, nem de sequer correr atrás de alguém.

Trôpego, fui até a moça que jazia deitada de lado, com um fino escorrimento de sangue saindo pela boca. Ela estava do mesmo jeito. Com os olhos arregalados, como se não acreditasse que uma pessoa, como àquela havia lhe apunhalado. Não tinha luvas, mas mesmo assim virei-a um pouco mais de lado, e notei que o golpe do punhal havia sido certeiro. Conhecia um pouco de medicina-legal. Entre a segunda e a terceira costela, era fatal, pegava-se o coração certeiro. Bastava apenas um golpe forte.

Olhei de lado. Não havia ninguém.

Atordoado sai dali. Logo alguém ligaria para a polícia, e não queria estar entre suspeitos ou mesmo testemunha.

Sai caminhando como um bêbado em fim de noite. Dobrei várias esquinas. Queria chegar logo em casa, me despir e dormir para esquecer àquela noite terrível.

Quando entrei pela avenida principal, avistei minha casa e senti a sensação de segurança. Ao olhar de lado, onde se situava uma choperia, quase caí de costas. O cadeirante estava numa mesa tomando chope. De costas para mim. Parei. De repente, ele se virou, fitou-me. Nossos olhares se cruzaram e permaneceram um no outro. Por fim, ele ergueu a caneca de chope e sorriu.

André Guazzelli – é contista e escritor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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