Contos do Zé #36 - Junípero e sua reunião com Deus
Junípero de Assis era um senhor que, no auge dos seus 94 anos, julgava ser alguém que poderia ajudar Deus a "melhorar" certos aspectos da vida na Terra.
Não que se julgasse acima D'Ele ou sequer que o Pai precisasse de suas opiniões. "Seu Junípero", como era conhecido no bairro, apenas queria servir ao Senhor mais uma vez, antes de ver chegar ao fim, essa sua caminhada pelo Planeta.
Ele não sentia que fosse partir logo ou coisa parecida, mas aos 94 anos, sabe como é, né? Ele próprio costumava dizer que já estava "fazendo hora extra há uns 20 anos, mais ou menos".
Como já havia se aposentado como Contador da Receita Federal há muito tempo, decidiu dedicar-se ainda mais à caridade, e atuava como Presidente da APAE de Ribeirão do Norte e Ministro da Igreja Católica local.
Desde pequeno, seu pai lhe ensinou a gostar de dinheiro e a ajudar aqueles que, legitimamente, eram necessitados.
-Aprenda, meu filho, para que não sofra: O dinheiro traz dignidade para você e a sua família. Por isso, trabalhe sem parar e sem desviar-se do caminho certo, que é o de Deus. Mas nunca se esqueça de olhar em volta e ajudar a quem precisa, de verdade. O capitalismo é o único sistema financeiro que permite a caridade.
E Junípero nunca falhou. Por diversas vezes durante sua vida, "deu de si, antes de pensar em si", como pregavam seus companheiros de Rotary.
Com o tempo, conheceu Leda e foi amor à primeira vista. Casaram-se apenas 18 dias depois e, a despeito do que disseram muitos, tiveram uma vida a dois longa e feliz. Foram 72 anos intensamente vividos. Vieram 4 meninas e 9 netos.
No que o casal passou a chamar de "auge de nossa família", a mesa nas festas de final de ano tinham que ter 19 lugares.
Mas, hoje isso já não existe mais. Leda faleceu e, com isso, o "Castelo dos Assis" ruiu. Todos mandaram mensagens no WhatsApp, mas ninguém apareceu para a Ceia. Cada um teve seus motivos. Uns foram compreensíveis à Junípero, e outros, não.
Como não receberia visitas pela primeira vez em muitas décadas, decidiu jantar cedo e meditar sobre os ensinamentos de Jesus. Preparou seu miojo (comia sempre, apesar do blá-blá-blá de sua médica) enquanto refletia sobre o que Jesus quis dizer na passagem sobre os Vendilhões do Templo.
Ao deitar-se, agradeceu pelo milagre da vida (que a cada dia ficava mais milagroso), pediu por todos aqueles que amava e também por todos aqueles que o amavam e entregou seu próximo dia aos desígnios de Deus. Essa era sua reza habitual.
Mas, meio que sem saber o motivo, acresntou: Se o Senhor não estiver muito ocupado, e eu for digno de estar em Sua presença, gostaria de uma reunião. Coisa rápida, 15 minutos, no máximo.
Assim que disse "que assim seja", Junípero já estava arrependido. Afinal, quem era ele, para solicitar uma "conversa de 15 minutos com Deus"? Ele havia blasfemado! "Se o Senhor não estiver muito ocupado...". Que absurdo!
E adormeceu.
Por volta das 03 da madrugada, a "hora mais escura", quando o silêncio é absoluto e os medos, mais intensos, Junípero acordou com uma luz absurdamente branco e brilhante, mas sobretudo calmante, que emanava nos pés de sua cama de casal.
-Quem é você?
-Você sabe, filho!
-Faço grande ideia, Senhor, mas ao mesmo tempo duvido, porque não sou digno de Sua presença!
-É, sim. Eu estou presente sempre, em tudo e para todos. Você sabe, aquela coisa de onipresença, onipotência e onisciência de que tanto falam nos cultos!
-Sim... Mas...
-Sem mas, filho! Dos seus "15 minutos, se eu não estivesse muito ocupado", só restam 12, disse Deus, gargalhando a mais sonora e bela das gargalhadas.
-Junípero corou, mas tomou coragem e disse: Acho que a sua criação da Terra e tudo o que nela há, foi maravilhosa...
-Mas?
-Acho que dá pra melhorar... Um pouquinho.
-Sempre dá - Concordou o Senhor - Quais são suas sugestões?
-O Senhor quer mesmo saber?
-Bom, saber eu já sei, mas vim até aqui para que você diga.
Depois dawuela "chamada Divina", Junípero até sentou-se na cama.
-O Senhor deseja uma água, ou quem sabe um café?
-Estou bem, obrigado. O que desejo mesmo, é ouvir sua opinião.
-Vamos lá... Acho que não devia chover aos finais de semana! Devia ser sempre sol e céu azul!
-Hum?
-Imagina só, como as pessoas aproveitariam?
-Certamente... E o que mais?
-Ainda nessa seara do clima, acho que só devia chover da meia-noite às 06! É muito difícil ter que sair por aí, na chuva!
-Sei como é...
Empolgado e confiante com o fato de Deus estar ali, continuou:
-E tem mais uma coisinha só...
-Só mais uma?
-Sim! Coisa pouca mesmo! Acho que o Senhor deveria, caso queira, é claro, afinal só estou tentando colaborar...
-Sim, claro...
-Acho que... Por um acaso o Senhor já percebeu que todas as comidas saudáveis não são tão gostosas, e as muito gostosas não são saudáveis?
-Rapaz... "Por um acaso", eu já tinha percebido sim!
-Claro, claro! Não me leve a mal! O Senhor foi quem criou tudo, e ainda em 7 dias, né?
-É o que dizem...
-Então... Imagine só, se comer pizza no café da manhã fosse saudável? Hein? As pessoas não seriam menos doentes? E se, ao irmos na nutricionista, ela dissesse: Seu Junípero, o senhor não está comendo bacon o suficiente! Assim, suas taxas de colesterol vão baixar!
-Seria engraçado, no mínimo!
-Então! E imagina se, antes de dormir, a gente tivesse que comer uma bela feijoada, com caipirinha e tudo, para ter uma boa noite de sono? Na verdade, é até simples... Alface, tomate, rúcula e afins... Péssimo para a saúde! Pizza, cachorro-quente e coxinha, excelente! O que acha?
Deus riu, deu um tapinha na perna direita de Junípero (a dor que tinha no joelho há anos, sarou imediatamente) e levantou-se.
-Foi maravilhoso estar com você, filho! Mas preciso ir! Tenho "algumas coisas" para resolver. Seus "15 minutos" duraram duas horas!
-Eu lamento ter tomado seu tempo, Senhor! Posso fazer uma última pergunta?
-Claro! E não precisa corar de vergonha!
-Leda está bem?
-Muito, mas sente sua falta o tempo todo!
-E eu, a dela - Disse, com lágrimas nos olhos - Jamais superei a falta dela...
-E eu não sei? Mas prometo que, em breve, vocês se reencontrarão. Para a vida eterna!
Quando raiou o sol, Junípero acordou e chorou. Sabia que tudo tinha sido um sonho. Muito vívido, sem dúvidas, mas um sonho.
Porém, quando levantou, sua perna não doía e estava sol, com céu azul. Era domingo, dia de ir à Igreja.
Por José Renato Fusco. É Advogado e Jornalista.
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