Ernestina estava com 76 anos, havia tido um casamento feliz com Rodolfo, falecido ano passado e, de uma maneira geral, não podia reclamar da vida.
Seu único desgosto era com o casamento da filha. Em suas palavras, tudo estava dando errado desde que a "Heloísa passou a andar com o William". Apesar de a união do casal ter sido concretizada há apenas dois anos, a Matriarca da Família Souza realmente detestava o genro com todas as forças.
Quando rezava todas as noites, seus pedidos eram sempre em prol da família, dos amigos, dos conhecidos e das “pessoas de bem em geral”. Costumava pedir também pela saúde de todos.
Ernestina não era uma má pessoa, e por isso não costumava desejar o mal das pessoas, mas se o fazia, não passava de um lampejo de pensamento, que logo se esvaia.
Mas nos últimos dias, sentia que precisava se confessar. Foi para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, que ficava no centro de Vila Verde e pediu para falar com o Padre Alcides.
Sabendo da religiosidade aflorada de sua fiel e percebendo sua angústia, o Sacerdote parou o que estava fazendo e a atendeu na mesma hora.
- Que mal lhe aflige, minha filha?
- Sabe, Padre… Eu rezo todas as noites.
- Isso é ótimo! Precisamos manter contato com o Criador.
- Mas nos últimos dias…
- Diga. É sempre bom desabafar!
- Nos últimos dias, tem sido cada vez mais recorrente em minha mente, um pensamento impróprio!
- Pensamentos impróprios são errados, como o nome já diz. Mas no nosso nível espiritual, são comuns. E qual seria?
- Não gosto do meu Genro… E tenho desejado muito, mas muito mesmo, que ele morra!
- Isso é pecado, minha Filha! Somente o Senhor pode determinar a vida ou a morte de um dos seus!
- Eu sei, Padre. Sei que peco. Mas não é só!
- Então diga!
- Quero que ele morra, só para eu ter o prazer de carregar o seu o caixão!













