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Entre o câncer e a “coragem”, Jefferson quer perdão nas urnas em 2018

Por Jornal A Bigorna 23/04/2017 21:41:00 1519
Entre o câncer e a “coragem”, Jefferson quer perdão nas urnas em 2018

Roberto Jeferson

Pouco menos de dois anos depois de deixar a cadeia, Roberto Jefferson, pivô do escândalo do mensalão, tem rotina de deputado. Entre terça e quinta-feira, está em Brasília recebendo uma romaria de políticos. Aos fins de semana, viaja o país.

Apenas no último mês, esteve duas vezes com o presidente Michel Temer no Palácio Planalto. Voltou a presidir o PTB e até agora está fora da "lista da Odebrecht," enquanto seu arquirrival, o ex-ministro petista José Dirceu, foi preso novamente por envolvimento no petrolão.

Jefferson, 64, é conhecido por ter, em 2005, revelado à Folha um esquema de compra de votos no Congresso pelo governo Lula. Teve o mandato cassado e foi condenado a 7 anos e 14 dias de prisão por receber R$ 4,5 milhões do "valerioduto."

O ex-deputado, que nunca disse onde foi parar o dinheiro, cumpriu mais de um ano em regime fechado, mas depois conseguiu que o Supremo Tribunal Federal perdoasse o restante da pena.

Agora quer ser absolvido pelas urnas. Uma pesquisa do Instituto Paraná animou seus correligionários: se for candidato a deputado federal por São Paulo, Jefferson pode ter cerca de 600 mil votos. É mais do que os 400 mil obtidos pelo pastor Marco Feliciano (PSC), o terceiro deputado mais votado do Estado em 2014, com um detalhe: o reduto eleitoral de Jefferson é o Rio de Janeiro.

CÂNCER

"Se a saúde deixar, vou ser candidato", disse à reportagem no escritório do PTB em Brasília. Ele se emocionou ao confirmar os rumores de que está novamente com câncer, agora na garganta. "É a terceira vez. Ô, doença complicada! Ela não para de apertar o sujeito."

Em julho de 2012, Jefferson passou por uma cirurgia para a retirada de outro tumor e perdeu a maior parte do aparelho digestivo, incluindo o estômago. Desde então, come pouco, não bebe uma gota de álcool e é acompanhado de perto pela mulher, Ana. É o inverso da sua rotina de anos atrás, quando chegou a ser obeso mórbido.

A família é contra mais uma campanha eleitoral. Seus companheiros de partido, no entanto, seguem insistindo. "Não vou deixar que ele desista. O Roberto tem potencial para eleger mais dois deputados junto com ele", diz o deputado estadual Campos Machado (PTB).

Para a deputada Cristiane Brasil (PTB), filha de Jefferson, o pai não precisa de mandato para fazer política. "Todo mundo escuta o que ele fala, inclusive o presidente", disse ela, que também esteve no encontro mais recente entre os dois na semana passada.

O poder de Jefferson está apoiado em quatro pilares: carisma pessoal, domínio do PTB, o sentimento antipetista no país e a relação próxima com Michel Temer, que conhece desde a Constituinte em 1988. Pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff, Jefferson procurou o então vice-presidente e ofereceu apoio. Em troca, o PTB ficou com o Ministério do Trabalho.

No Planalto, o ex-deputado é visto como alguém com forte influência não apenas sobre a bancada do seu partido, mas também sobre outros parlamentares. Portanto, tem sido bajulado pelo governo, que precisa de apoio para aprovar reformas impopulares.

O grupo de Jefferson domina o PTB desde 2003, quando ele assumiu a presidência do partido pela primeira vez. Mesmo da prisão, comandava informalmente a sigla por meio de recados enviados para a filha. Teve influência decisiva, por exemplo, na decisão do PTB de apoiar Aécio Neves em 2014.

CORAGEM

Fora de Brasília, Jefferson desperta reações mistas. É hostilizado por petistas e aplaudido por quem detesta o PT. Conta ter ouvido pouco tempo atrás de um aposentado que é "igual a eles [políticos], mas teve coragem de mudar o Brasil".

O discurso que promete para a campanha é de que sua "coragem" de denunciar o mensalão impediu o Brasil de virar uma Venezuela. "Se fosse o Zé Dirceu no lugar da Dilma, o povo estava apanhando na rua de milícias armadas", afirma.

A retórica inflamada para por aí. Para 2018, gostaria que o país tivesse um presidente "pacificador," como o governador Geraldo Alckmin (SP), embora avalie que o PSDB foi o partido mais afetado pelas delações da Odebrecht.

Critica ainda o prefeito de São Paulo, João Doria, que aparece como opção à Presidência se os nomes tradicionais do PSDB ficarem inviáveis. "É um grande nome, mas tem que se moderar. Se quiser ser presidente, ele não pode sair descendo o cacete no Lula", diz.

O futuro político de Roberto Jefferson só será definido no início de junho, quando está marcada a nova cirurgia para a retirada do câncer. Mas, mesmo sem cargo eletivo, o político, que parecia carta fora do baralho dois anos atrás, voltou a ser influente.(DaF.S.Paulo)

 

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