Por André Luís - Sempre que posso e as pernas permitem vou a alguma igreja. Em geral, gosto delas mais vazias. Inspiram mais paz e harmonia.
Após um tempo, olhei o relógio. Passavam das 11 da manhã, e teria que me virar com o almoço. Estava saindo pelo corredor central, quando vi um menino ajoelhado na última fileira das cadeiras. Notei seu olhar triste, e, muito embora, não chorasse. Apenas cabisbaixo para quem lhe avistava de longe.
Não sei por que, pois sou um péssimo em saber os porquês da vida, algo me impeliu a chegar perto do menino. Sentei-me ao seu lado, e ele, por sua vez, ao me ver, estranhamente, não se assustou, apenas sentou-se e me fitou profundamente.
Não disse nada. Nem houve tempo. Ele olhou pra mim e perguntou o que significava os escritos acima da enorme Cruz que adornava a frente do altar. Disse lhe que aquilo remontava à época de Cristo, e significava Jesus de Nazaré Rei dos Judeus.
Ele me olhou espantando. “Nossa, INRI, que estranho”. Aquiesci e lhe expliquei melhor, dizendo-lhe que aquilo ali eram as siglas em latim, muito embora, que significavam: Iesus Nazarenus, Rex Iudaerum, muito embora, lhe disse, que Jesus Cristo falava em aramaico.
O menino, arguto ficou espantado e me perguntou como se escrevia em aramaico. Parei um pouco, pois os anos de Seminário tinham fugido a mente, e por um instante fiquei a pensar.
“Ah, lembrei-me, mas não em aramaico, que é uma língua muito difícil. Lembro-me em hebraico, somente, mas não sei escrever mais”.
Seus olhos ficaram perplexos. Ele sorriu dizendo que nunca havia visto coisa igual. “parecem desenhos.” E riu copiosamente gostoso como uma criança.
Virei e lhe disse que apesar de falar aramaico, Jesus também sabia hebraico.
Depois de conversarmos bastante sobre religião, percebi que o menino entristeceu-se. Parou de falar, e notei muita tristeza em seu olhar. Perguntei-lhe por que daquela mudança.
Ele lentamente se levantou deu-me um sorriso, e me disse:
"Tenho que ir. Minha avó morreu ontem, o enterro foi hoje, e meus pais estão presos por serem traficantes".
Uma lágrima escorreu de seu rosto, e vi que ele resistia em chorar, contudo ao mesmo tempo vi brilhar uma luz intensa naquele garoto. Ele será um vencedor, pensei comigo.
Apoiando as mãos na cadeira ele se desmanchou em lágrimas. Fiquei sem reação e quando fui tentar consolá-lo, ele me olhou. Um olhar triste, mas ao mesmo tempo de fulgor e esperança. “Sabe senhor, nunca conheci minha mãe de verdade. Ela vivia drogada. Queria ter uma mãe de verdade. Na escola todos faziam desenhos para entregar as suas mães no dia delas. Eu não fazia nada. Ela estava presa há anos, e minha avó foi à verdadeira mãe que tive e que eu desenhava agradecimentos a ela, sabe. Hoje ao vê-la descer num buraco, parece que minha vida tinha acabado.”
E continuou:
“Amanhã, serei obrigado a ir para um orfanato, pois meus tios não me quiseram, e não tenho onde ficar. Mas sabe senhor, um dia vou ser pai, e meus filhos terão uma mãe que eu nunca tive.”
Acenei e lhe disse que, quando se sentisse só ou angustiado que procurasse sempre o caminho da paz e rezasse não só por sua avó, mas também pelos seus pais.
Ele assentiu e saiu.
Visitei-o por mais umas três vezes, quando soube que uma família de São Paulo iria adotá-lo.
Assim que me disse a novidade, ele me abraçou alegremente. Ficamos mais um tempo conversando e notei a alegria nele, ao saber que teria uma família de verdade. Quando saí dali, chorei copiosamente, e, ao mesmo tempo feliz, por Deus ter-lhe proporcionado um caminho.
Depois deste último encontro, passaram-se vinte anos.
Eu estava sentado no jardim do Asilo. Havia tido um AVC, que me impossibilitara de continuar a viver sozinho. Embora estivesse frio, um sol teimava em aparecer. Sentado numa cadeira-de-roda, olhava os transeuntes e carros que por ali passavam.
Do outro lado da esquina apareceu um belo casal com duas crianças. O homem estava elegantemente trajado, ao lado de uma moça linda e radiante. As crianças pulavam e falavam ao mesmo tempo.
O homem atravessou a esquina de mãos dadas com as crianças e a esposa.
De repente ele olhou para cima. Nossos olhares se cruzaram. Ele tirou os óculos de sol e fixou o olhar em mim e saiu correndo, sem dizer nada a mulher e aos filhos.
Senti uma mão em meu ombro, e lentamente, o homem apareceu em minha frente.
“Meu Deus”. – exclamou - “Não acredito que estou vendo o senhor novamente. Por Deus, vim para cá vários anos, fui até sua casa, e disseram-me que o senhor não morava mais lá, e que não sabiam de seu paradeiro”.
Ele me abraçou fortemente e começou a chorar como àquele menino que havia conhecido na igreja. Contou-me que depois da adoção, seus pais adotivos lhe pagaram uma faculdade e ele havia se formado em Ciência da Computação. Mostrou a mulher e os filhos do outro lado da rua.
“Meu amigo, que felicidade em reencontrá-lo. Pedi tanto a Deus que me desse uma oportunidade de poder lhe rever.”
Como não conseguia mais falar, tirei um papel do bolso e lhe escrevi:
“Não lhe disse que você seria um homem vitorioso!”
Ele pegou o papel, fechou a mão e voltou a chorar, dizendo-me que estava na cidade para visitar sua mãe, que ele conseguira tirar do vício ao interná-la numa clínica de reabilitação. Ela estava, enfim, recuperada. Já seu pai, havia sumido e nunca mais tinha tido notícias dele, me contou.
Nos abraçamos novamente e ele prometeu que voltaria para me visitar no próximo feriado. Era agora um homem de sucesso, e gerente de uma grande construtora e naquele dia especial iria - pela primeira vez - almoçar com sua mãe biológica.
Ele beijou minhas mãos e minha testa e voltou a chorar.
Despedimo-nos com um fraternal abraço.
Era Dia das Mães!













