Por José Carlos Santos Peres - *
Avaré cabia num palmo de olhar, naqueles anos de jabuticabas, balaústres, mãe em avental e pai de botas amarelas calcinadas com o barro do ofício.
Havia sombras molhadas no fundo da horta de tomates dependurados como pérolas vermelhas, e um riozinho assim-assim que conduzia meus barquinhos – navios de guerra - de quilhas desgovernadas.
O cavalo dos meus pés me conduzia à caça: um calango no desassossego de folhas soltas, sustos de pássaros e achados que ao menino serviam à espada, à arapuca sempre armada; o futebol de sete da turma da minha rua contra a turma da rua de cima na esquina de poucos carros.
Avaré tão pequenininha que cabia num palmo de olhar; aquietava-se nas primeiras horas da noite com cadeiras de vime espalhadas pelas calçadas, um rádio sobre muro (A Turma da Maré Mansa na Tupy) e poucas lâmpadas amarelas em postes de madeira aquecendo mariposas; na porta sem trinco uma cadeira encostada para enganar o vento, e um vira-lata cuidando de gatos, galos, sombras e varal.
Havia quintais, esse espaço onde o universo se realizava como mar, como deserto, como horizonte de um mundo imaginário. Quintais de avencas, samambaias e gaiolas no alpendre; sombras e musgos, couves e abacates, bananeiras e sabiás.
A cidade buliçosa pelo entorno do Largo São João com suas moçoilas de batom carmesim, blusinha sobre ombros e bolsa vermelha com zíper; bang-bang no Santa Cruz com troca de gibis – Buffalo Bil, Flash Gordon, Fantasma – O Espírito que Anda -, Zorro, Bill The Kid, Capitão América –; as pernas das meninas do Coronel; grapette e crush no Satoro, raspadinhas de gelo, geleia e quebra queixo; a primeira Antárctica no Chuca, o primeiro Luiz XV no Bambuzinho, o primeiro beijo sob luz morta no Largo Santa Cruz (um erro retirar os pequenos postes com arandelas do local, tão charmosos, tão característicos); cinturão, calça apertada; era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones.
(“Os chofers ficam zangados/Porque precisam estacar diante da pequena procissão/
Mas tiram os bonés e rezam/ Procissão tão pequenina tão bonitinha/ Perdida num bolso da cidade/Bandeirolas// Opas verdes// (…) Um andor nos ombros mulatos/De quatro filhas alvíssimas de Maria/ Nossa Senhora vai atrás (…)– Oswald de Andrade).
Mudou o homem ou o Natal? Sem mãe em avental para o bolo às tardes sob toalha de plástico; sermões do padre, gonorréia, Biotônico Fontoura e brilhantina; sem mais botas amarelas calcinadas; futebol de rua, dedão sangrando, rio das bostas e rabeira de caminhão; sem mais bicicleta Phillips, e trem apitando na madrugada... Sem mais aventuras no hangar do aeroporto; sem alvinegros e tricolores em Chácara Santana e no audio da ZYS-3 com Clóvis, Elias e Hanni.
Sem mais quintais e sem poesia.
(* - Especial para A Bigorna; articulista do Jornal A Voz do Vale).













