Lênin, num artigo para o jornal bolchevique Pravda, em abril de 1917, escreveu que "uma marca altamente relevante da nossa revolução é que ela trouxe à tona um poder dual".
Esse poder dual ao qual Lênin fazia referência era o conflito entre o então governo provisório russo, liderado por Kerenski —que era desqualificado pelos bolcheviques, como sendo afeminado e, supostamente, tendo fugido da Rússia vestido de mulher, coisa que diziam ser um gosto pessoal dele— e o soviete dos trabalhadores e soldados de Petrogrado. Este nome foi dado a cidade de São Petersburgo para que, durante a primeira guerra contra a Alemanha, sua então capital fosse russificada.
Entretanto, esse caráter dual da soberania no início da Revolução Russa, que implicava um impasse para esta mesma soberania, não era exatamente novidade na história das revoluções. Lênin comparava a situação do soviete bolchevique à chamada Comuna de Paris de 1871, que então enfrentara o governo nacional francês.
Lênin descrevia em seu artigo para o Pravda três fatores que marcaram a Comuna de Paris de 1871 —"uma iniciativa direta do povo a partir de baixo, em suas áreas locais", "população armada" e "governo direto do próprio povo".
O sociólogo e historiador Charles Tilly, no seu "From Mobilization to Revolution", de 1978, descreveu como processos revolucionários foram marcados por um governo único inicial revolucionário, seguido por uma tendência ao fenômeno de múltiplas soberanias em conflito, muitas vezes, levando a violência a se alastrar pelo tecido social. Ou seja, diferentes grupos organizados reclamando serem eles o soberano legítimo.
Para Dan Edelstein, no seu "Revolution to Come, a History of an Idea of Revolution from Thucydides to Lenin", de 2025, essa semelhança entre o soviete bolchevique e a Comuna de Paris de 1871 replicava o mesmo fenômeno que se passou na Revolução Francesa, quando a Comuna de Paris de 1792 entrou em conflito com a Assembleia Geral revolucionária.
A partir de 1789, todos os republicanos revolucionários franceses concordavam que a soberania deveria ser do povo. O conflito não era, portanto, quanto a quem deveria ter a soberania, mas, sim, quem representava de fato o povo soberano. Esta questão ainda hoje se aplica, por exemplo, no Brasil, ou seja, a quem de fato faz a defesa da democracia, o Supremo Tribunal Federal e sua dobradinha com o PT ou os bolsonaristas.
O discurso público desses dois "partidos", para quem tem algum repertório que vai além da estúpida polarização que assola o país, é, evidentemente, marcado por essa controvérsia acerca de quem, verdadeiramente, detém a legítima representação do povo brasileiro soberano na defesa da sua democracia.
Na França revolucionária, os conflitos entre os atores políticos versavam, em grande parte, sobre quais desses atores falavam em nome do povo francês. Como bem sabemos, esse processo de esgarçamento da soberania levou à violência que devastou a França por anos.
Mas, ainda seguindo Edelstein, devemos dar um passo atrás, se quisermos, consistentemente, compreender qual era a raiz filosófica e política dessa multiplicidade de partidos a disputar a legítima representação do povo francês soberano, ou, dito de outra forma, quem era o soberano legítimo que recebia essa soberania de quem, de fato, a possuía —o povo.
E aqui, revela-se uma disputa acerca de quem representava de modo consistente o princípio filosófico e histórico que animou todas as revoluções modernas até aqui, a saber, a crença de que a história progride. A fé no progresso da humanidade estava por trás de tudo. E, se o progresso implica uma linearidade de ações políticas que se somam para realizá-lo no horizonte, a disputa é por quem realizaria o progresso ao longo do tempo histórico e quem tentaria, a todo custo, impedi-lo. Se há vários partidos que dizem representar o progresso, alguém mente ou erra. Quem não concorda comigo, a rigor, é contra o progresso. É nesse lugar que deita raízes o conceito de progressista.
Há, portanto, um postulado metafísico por trás do progressista: a história avança para melhor. O oposto desse postulado não é o conservador ou o contrarrevolucionário, que formam um par dialético com o progressista, mas, sim, quem pensa como os antigos: a história anda e se repete em círculos, indo para lugar nenhum. Tucídides e não Hegel ou Marx.
Há, entretanto, um impasse, hoje, para os progressistas, à diferença das revoluções modernas: não se pode mais defender, abertamente, matar os contrarrevolucionários. "O que fazer?", como escreveu Lênin.
Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP













