Crônica
O RÁDIO TOCOU ELTON JOHN
José Carlos Santos Peres
Hoje dei cabo de mim, assim que o rádio tocou Elton John. Estavas ainda mais linda, num azul transparente que te deixavas.
Quantas vezes deslizar pelos teus caminhos era plantar girassóis em teu corpo... A lua dos teus olhos se incendiava, e dizias da eternidade do nosso amor. O eterno do momento.
Agora me chegas no vinho barato, na música perdida, no vento lá fora... “Ouvir a noite imensa/mais imensa sem ela”.
Tudo passou, pássaro perdido do seu beiral. Como passa agora em algum lugar o perfume embriagador de um jasmineiro quebrando o vazio de uma esquina numa cidade qualquer. A vida sempre é um zás, um trem perdido do seu roteiro, um acaso, um jogo de dados.
Quando acordamos o mundo era outro. E já não estavas... A imensa sombra da solidão se estendendo por todas as outras noites. Estivera, e havia os girassóis que meus dedos plantavam em teu corpo.
Hoje, uma mulher desenhada no lençol da memória, um cheiro particular incrustrado no tempo das horas que se desprendem... Então a vejo no abismo dos meus sonhos, num azul em seda volátil, como a se deixar. Tão perto, e definitivamente tão distante.
Tão perto e tão distante nessas horas de sonho e realidade, de ausência e presença, assim que a manhã despeja através da cortina pedaços do dia, os quais recolho, antes que a cava no lençol - imaginária cicatriz a martelar saudades - se desfaça à inevitável arrumação dessa nova e torturante realidade.













