CRÔNICA
MAIO QUE NÃO TERMINA
José Carlos Santos Peres
Quando dei por mim, a sombra da tarde rastejava pela costa fria do quintal. Era tarde de um maio de buganvília multicolorida enlaçando uma videira de cepas marrons.
Pai chegara do eito debruçando do alpendre um olhar de eterno cansaço em busca de alguma coisa perdida no mosaico verde do canavial, enquanto Nero rugia certa alegria desprovida de contentamento por entre suas botas amarelas.
Hora, pois, de recolher o que restara de todos aqueles vazios; acalmar o sussurro da noite então já em passos sobre o zinco navalhado do teto, enquanto a reza picotada de pausas intermináveis da mulher que nos dava colo, afeto e tempero ordenava à casa o silêncio noturno.
Tudo se aquecia molemente ao calor de nossos corpos; na mesa lateral posta no corredor de tábuas corridas a chama da lamparina tecia seu tempo bruxuleando traços bailarinos na parede de taipa.
Havia figuras fantasmagóricas num balé distorcido pelas ranhuras do barro reveladas pela chama; pequenos besouros indo e vindo em passos descompassados aos olhos famintos de lagartixas curiosas.
E havia girassol no quintal, uvas verdes, galo distante; o olhar sem brilho do homem que se colocava no alpendre para buscar algum sentido no horizonte...
E aquela reza entrecortada de mãe nos dando paz naquelas noites de sombras bailarinas construindo fantasmas pela parede de barro.
Hoje, quando dou por mim, aquele maio é página de um calendário que ainda não se perdeu.













