O conflito entre os setores do PMDB favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff e as alas ainda governistas se tornou uma disputa aberta, travada em público pelos grupos ligados ao vice-presidente da República e presidente do PMDB, Michel Temer, e a Renan Calheiros (AL), presidente do Senado.
Apesar da convivência "profícua" e "fértil" prometida por Temer e Dilma Rousseff na semana passada, o vice-presidente trabalha ativamente para remover a petista do Planalto e assumir sua cadeira. Além da carta enviada a Dilma, um dos passos principais na empreitada de Temer foi à destituição de Leonardo Picciani (RJ) da liderança do PMDB no Rio de Janeiro.
O movimento, coordenado por Temer e pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), colocou Leonardo Quintão (MG) no posto e gerou uma reação de setores governistas do PMDB, apoiada pelo Planalto. A estratégia consiste em mudar a configuração da bancada peemedebista na Câmara, por meio da filiação de políticos com mandato e do retorno de deputados federais que estavam em cargos fora da Câmara.
A segunda parte da estratégia está em vigor. Voltou à Câmara nesta quarta-feira 16, por exemplo, Pedro Paulo Carvalho, que até o dia anterior era secretário de Governo do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PMDB e aliado de Dilma. Apontado como pré-candidato à sucessão de Paes e investigado por agredir a mulher, Pedro Paulo vai engrossar o grupo pró-Dilma do PMDB de forma a tentar reverter a destituição de Picciani.
A segunda parte da estratégia do grupo governista do PMDB, no entanto, foi barrada pela Executiva Nacional do partido, comandada por Michel Temer. Nesta quarta-feira 16, por 15 votos a 2, o partido proibiu filiações automáticas de políticos com mandato. Picciani afirmou que vai à Justiça e o ministro da Saúde, Marcelo Castro, também do PMDB, lamentou a interferência de Temer.
"É claro que [o Temer] tomou [partido]. É claro que está francamente trabalhando pela liderança do Leonardo Quintão. Isso aí é mais do que óbvio, não precisa nem eu dizer", disse Castro. Segundo ele, não é "saudável" o presidente de um partido interferir em disputas internas. "Não acho saudável. Eu acho que um presidente de partido, mas isso cada um conduz como achar conveniente, mas acho que um presidente de partido, seu primeiro dever, sua primeira obrigação é de ser isento e neutro dentro das disputas internas do partido, mas não sou que vou ensinar o Michel Temer a fazer política. Pelo contrário".
A reação mais dura foi a de Renan Calheiros. "Fazer reunião para proibir [filiações]? Um partido democrático, que não tem dono, que se caracteriza por isso, fazer reunião para proibir a entrada de deputado é um retrocesso que deve estar fazendo o doutor Ulysses tremer na cova. O presidente Michel é o presidente do partido. Se alguém tem responsabilidade com relação a isso, é o presidente Michel", disse Renan.
Renan Calheiros
Renan no Senado, nesta quarta-feira 16: ao lado do líder do PMDB na Casa, Eunício Oliveira (CE), ele fez duras críticas a Temer
O presidente do Senado também responsabilizou seu partido pela crise política e criticou a ânsia por cargos, expressa em uma referência ao departamento de "Recursos Humanos". "Acho que o PMDB tem muita culpa. Quando foi chamado para coordenar o processo político, do governo, da coalizão, o PMDB se preocupou apenas com o RH. Eu adverti sobre isso na oportunidade. O PMDB perdeu a oportunidade de qualificar sua participação no governo. O governo tem culpa mas o PMDB também tem muita culpa com o que está acontecendo", afirmou.
A resposta de Temer e de seus aliados ao senador alagoano veio rapidamente, em formato de nota assinada pela assessoria de imprensa do PMDB. O texto trata as filiações como "artimanhas", insinua que Renan Calheiros é um "coronel" e ironiza a referência feita por ele à "cova" de Ulysses Guimarães, cujo corpo desapareceu após um acidente de helicóptero em 1992.
"A Comissão Executiva Nacional do PMDB é órgão colegiado com plena competência para tomar decisões que preservem o partido de manobras e artimanhas que quebrem artificialmente a vontade expressa legitimamente pelas suas instâncias internas", diz a nota. "Neste momento, os disputantes da Liderança na Câmara dos Deputados buscavam filiar deputados transitórios apenas para assinarem lista de apoio. Isto fragilizaria o PMDB. Por isso, a decisão da Executiva de evitar tais procedimentos", completa.
Não à toa o conflito interno pelo PMDB se acirra à medida que avança o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Uma disputa definirá a outra, e também qual setor do partido, eternamente governista, estará mais próximo do poder estatal.
Abaixo, a íntegra da nota do PMDB:
Sobre as declarações do presidente do Senado, cabe destacar que:
1 – A Comissão Executiva Nacional do PMDB é órgão colegiado com plena competência para tomar decisões que preservem o partido de manobras e artimanhas que quebrem artificialmente a vontade expressa legitimamente pelas suas instâncias internas. Neste momento, os disputantes da Liderança na Câmara dos Deputados buscavam filiar deputados transitórios apenas para assinarem lista de apoio. Isto fragilizaria o PMDB. Por isso, a decisão da Executiva de evitar tais procedimentos.
2 – É correta a afirmação de que o PMDB não tem dono. Nem coronéis. Por isso, suas decisões são baseadas no voto. O resultado apurado na reunião de hoje da Executiva foi de 15 votos a favor da resolução e dois contrários, resultado revelador de ampla maioria. Decisão, portanto, democrática e legítima.
3 – O deputado Ulysses Guimarães foi a maior liderança do PMDB. Qualquer jovem peemedebista sabe que seu desaparecimento se deu em um acidente em Angra dos Reis, em 1992. Seu corpo repousa no fundo do mar e devemos manter o respeito à sua história e sua memória, sem evocar seu nome em discussões que em nada enobrecem seu exemplo de retidão, honestidade e decência para todo o PMDB.













