O Abraço
Há no abraço o mapa antigo
Dessa terra que habitamos:
Não de barro, ossos e lodo,
Mas de gestos que trocamos.
É no laço que se estende
Entre uma mão e outra mão,
Que o humano se defende
Da fria solidão.
Não é pele, cor ou raça,
Não é nome, classe ou rito -
É a simples, pura graça
De um ombro que se faz abrigo.
Mas vejo o ódio que se enleia,
O egoísmo a nos cegar,
A inveja que nos semeia
O medo de nos entregar.
Transformamos o abrigo em trincheira,
O cuidado em cálculo vão,
E a esperança, inteira,
Em desconfiança na mão.
Que mundo é este que construímos
Onde todos são rivais?
Onde o amor que nos une
Se perde em combates banais?
O amor não deveria ser
"O todos contra todos" cego,
Mas o fio do saber
Que tece humano enlace inteiro.
Que o abraço seja ponte,
Não muralha a separar;
Seja lenço no horizonte
Para enxugar todo mar.
Pois somos feitos do mesmo barro,
Da mesma luz, do mesmo pó -
No calor do abraço raro
Reside o mais puro véu.
Que cada gesto seja um fio
Nessa trama a nos unir,
Até que no peito frio
Renasça o antigo porvir.
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André Guazzelli
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